"Temos esta Esperança como âncora da alma, firme e segura, a qual adentra o santuário interior, por trás do véu, onde Jesus que nos precedeu, entrou em nosso lugar..." (Hebreus 6.19,20a)

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

AS FERIDAS LEAIS DE UM AMIGO por Ricardo Barbosa


Alguns meses atrás, marquei com um amigo para passarmos um tempo juntos, conversando e orando. Durante nossa conversa, abri meu coração, compartilhei com ele minhas frustrações, cansaço, desânimo e tristeza. Depois de me ouvir com atenção, voltou-se para mim e disse que o meu problema não eram os outros, nem meus planos que não deram certo, mas eu mesmo. Disse quanto eu era orgulhoso e que minhas frustrações refletiam a decepção que eu nutria para comigo mesmo. A conversa foi dura e longa.

Depois da decepção por não ter ouvido o que eu gostaria de ouvir, agradeci a Deus por aquele irmão ter tido a coragem de me alertar para o abismo no qual eu estava entrando. Sua honestidade e amor deram-lhe a coragem moral de não hesitar em me ferir. Pude perceber que minhas frustrações, fruto do meu orgulho, prejudicavam não só a mim, mas todos à minha volta. O sábio de Provérbios diz: “Leais são as feridas feitas pelo que ama, porém os beijos de quem odeia são enganosos” (Pv 27.6). Todos nós precisamos de amigos leais que tenham a coragem de nos ferir, porém, numa cultura politicamente correta e hipersensível a críticas, abandonamos as palavras sinceras e verdadeiras e as trocamos por bajulações vazias e falsos elogios.

Uma das marcas da amizade de Jesus com seus discípulos foram suas “palavras duras” dirigidas a eles. Ele não caminhou com seus discípulos proferindo apenas palavras suaves, doces e afirmativas. Jesus foi capaz de dizer “arreda de mim Satanás…” a Pedro, um dos seus discípulos mais próximos. Recomendou ao jovem rico que doasse todos os seus bens aos pobres. Àqueles que queriam segui-lo, disse que deveriam abandonar pai, mãe, mulher, filhos irmãos e a própria vida. Jesus encorajou seus seguidores com palavras consoladoras, porém nunca abandonou as palavras duras e jamais hesitou em ferir seus discípulos, para o bem deles. Por isso mesmo Jesus os chamou de “amigos”.

Quando pensamos em amizade, pensamos em pessoas por quem naturalmente temos grande empatia, que gostam das mesmas coisas que gostamos e pensam do mesmo jeito que pensamos. Procuramos pessoas que nos confortem em tempos difíceis, encorajem nos momentos de dúvida e nos apoiem em nossos planos e projetos. No entanto, sabemos que amizade é mais do que isso.

Sabemos que poucas pessoas se importam, de verdade, com nossa alma. Poucos têm a coragem de colocar em risco sua imagem pessoal ferindo nosso orgulho pelo bem da verdade e da eternidade. Muitos beijos e abraços são enganosos e têm o potencial de nos fazer acreditar naquilo que não somos; mesmo aqueles que são sinceros podem nos afastar de Deus e da salvação. Amigos que fazem as perguntas difíceis, que se importam com nossa vida, com o risco de nos perdermos em nossos pecados e enganos, que preferem nos ferir a nos ver perdidos e confusos, são os verdadeiros amigos.

Encontramos nos Evangelhos um exemplo real de amizade. Jesus via seus discípulos como pessoas que lhe haviam sido confiadas por Deus. Por isso ele os repreendeu, exortou, foi firme e duro e, ao mesmo tempo, compassivo e misericordioso. Jamais abriu mão de sua lealdade e buscou, em todo tempo, conduzir seus amigos ao conhecimento de Deus e à vida eterna.

Sou grato a Deus pelos amigos que me ferem, pelas perguntas difíceis e reveladoras. Sou grato a Deus por aqueles que preferem mais ser leais a ser simpáticos, que se importam mais comigo do que com sua imagem, que zelam pela minha eternidade e não por um breve e frágil momento de descontração.

• Ricardo Barbosa de Sousa é pastor da Igreja Presbiteriana do Planalto e coordenador do Centro Cristão de Estudos, em Brasília. É autor de, entre outros, A Espiritualidade, o Evangelho e a Igreja e Pensamentos Transformados, Emoções Redimidas. http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/363/as-feridas-leais-de-um-amigo

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

A PROFISSÃO MAIS DIFÍCIL DO MUNDO por Philip Yancey

Certa ocasião, jantei na casa de uma família amish (um grupo cristão conservador da América do Norte), e fiquei sabendo de seu processo incomum de escolher um pastor. Naquela parte do país poucos amihs estudam depois da oitava série, e quase ninguém tem formação teológica. A congregação toda vota em qualquer um de seus integrantes masculinos que mostre algum potencial pastoral, e os que recebe pelo menos três votos se sentam ao redor de uma mesa. Cada um deles tem diante de si um hinário e dentro deste hinário escolhido aleatoriamente um dos candidatos encontra um cartão que o designa como o novo pastor. Durante o próximo ano cabe a ele fazer dois sermões por semana, com a duração média de 90 minutos.

“O que acontece se quem receber a indicação não se sentir capacitado?”, perguntei para meu amigo amish. Ele me olhou intrigado e respondeu: “Se ele se sentisse qualificado, nós não o indicaríamos. Queremos um homem humilde, alguém que conta com Deus”.

Não recomendo o método amish de chamado pastoral (embora ele de fato guarde um intrigante paralelismo com o sistema de sorteios do Antigo Testamento), mas o último comentário de meu amigo me fez pensar. Thomas Merton disse certa vez que quase tudo o que esperamos de pastores e sacerdotes - ensinar e aconselhar as pessoas, consolá-las, orar por elas - deveria na verdade ser responsabilidade do resto da congregação. Nos parece que o distintivo da vocação pastoral é ser o homem de Deus, aquele que “é chamado para ser outro Cristo em um sentido mais particular e íntimo que o cristão comum”. O pastor fica como uma espécie de intermediário da misericórdia de Deus, composto pela sua função de pregador e admoestação dos pecadores.

Em nossa fixação por perfis profissionais e competência na carreira, será que não esquecemos da qualificação mais importante de um pastor - a necessidade de conhecer a Deus? Mahatma Gandhi, líder de meio bilhão de pessoas, mesmo no calor de negociações envolvendo a independência da Índia, se recusava a comprometer seu princípio de guardar toda segunda-feira como um dia de silêncio. Ele acreditava que se deixasse de guardar esse dia de nutrição espiritual ficaria menos eficiente durante os outros seis.

Eu me pergunto em que medida nossos líderes espirituais seriam mais eficientes se nós lhe concedêssemos um dia por semana como um tempo de silêncio para a reflexão, meditação e estudo pessoal. Eu me pergunto como nossas igrejas seriam se nós fizéssemos da saúde espiritual do pastor - e não sua eficiência - nossa prioridade número um.



Coluna Back Page (Publicado originalmente em 21 de maio de 2001, na revista Christianity Today)
Do Livro devocioanal SINAIS DA GRAÇA - Mundo Cristão.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

CARTA DE UM PASTOR PROTESTANTE À PRESIDENTE ELEITA

Excelentíssima Senhora Presidente da República Dilma Rousseff, 

Cerca de 54 milhões de brasileiros acabaram de elegê-la presidente do Brasil. Entre esses, número incontável de pobres, que escolheram a senhora e o seu partido em razão do serviço que prestaram à nação, ao fazerem correção histórica de iniquidade com a qual a maioria de nós brasileiros convivíamos sem nos perturbar: a miséria de homens, mulheres e crianças deste país, que desde o período da sua colonização sempre viu com naturalidade pobres invisíveis fazendo o papel de coadjuvantes da vida do rico, servindo-o mediante sistema de exploração descarada, sem falar naqueles que nem ser explorados puderam, por viverem completamente à margem da vida, mendigando o pão. 

Na condição de amante da democracia, que representa o estágio mais avançado das concepções políticas da humanidade, uma vez que ainda não foi demonstrado modelo político que mais dignifique o homem do que o governo com o consentimento do governado, assumo o compromisso de estar ao lado de todo aquele que tenciona apoiá-la, torcer pelo seu sucesso e honrá-la na condição de presidente democraticamente eleita. 

Considero, contudo, que não seja desrespeitoso e antidemocrático falar do que me causa angústia, perplexidade e apreensão quando penso no país que Vossa Excelência e o seu partido governam há 12 anos. Passo a responder ao convite que a sua coordenação de campanha me fez na semana passada, chamando-me para apresentar as propostas do movimento social que presido. 

Presidente Dilma, em seu governo e no do seu antecessor mais de 600 mil pessoas -a maioria esmagadora, pobres-, tiveram a vida interrompida pelo crime. Números de guerra civil. Milhões de brasileiros olham diariamente para o porta retrato de parentes amados que foram arrebatados do seu convívio por terem nascido num país que deixa matar. 

Jazem em nossas prisões quase 600 mil seres humanos, vivendo em masmorras medievais, com características de campo de concentração nazista, num país cuja presidente afirma conhecer a dura realidade do cárcere, por já ter passado por ele. 

A maior parte do povo brasileiro não passa mais fome, entretanto, vive muito mal. Morando em ruas encardidas e imundas, com esgoto banhando os pés de meninos e meninas pobres, que jogam bola e brincam de boneca disputando espaço com ratazanas. Crescimento econômico não é tudo. Carecemos daquela espécie de desenvolvimento que amplia a liberdade humana, propiciando a parcelas cada vez mais amplas da sociedade poder contribuir para a arte, ciência, literatura, política, esporte. Como alcançar essa plenitude de vida se, por falta de hospitais e médicos, doenças deformam o corpo; e, por falta de acesso a educação de qualidade, a desinformação atrofia o intelecto? 

A classe média, que banca o "Bolsa Família" e o "Minha Casa, Minha Vida", trabalha oito, dez, doze horas por dia seis vezes por semana; mas não sem passar quatro horas do seu tempo em trânsito infernal, para ganhar pouco e viver sem razão. Milhões e milhões trabalham apenas para manter a vida biológica, uma vez que não têm tempo para a leitura de bons livros, para o amor, para o contato com a natureza, para o engajamento político, para a prática de um hobby, para o investimento na sua própria vida visando sua ascensão social.  
Presidente Dilma, quando será implementando plano visando a queda progressiva de investimento em programas assistencialistas? Não estou pregando o fim do Estado do bem-estar social. O que preocupa aos milhões que não votaram em Vossa Excelência é o fato de a esmola que é oferecida a gente saudável humilhar o pobre, expor seu caráter a deformidades e impedir que contribua para o embelezamento, desenvolvimento e aperfeiçoamento da vida em sociedade. 

Presidente, quando o pobre encontrará a porta de saída do bolsa família? Presidente Dilma, não estou aqui para apresentar um programa de governo. Não tenho competência para isso, embora a experiência de campo em trabalhos nas favelas do Rio de Janeiro, no sistema prisional, no sertão nordestino, nos cemitérios levando consolação para parentes de vítima da violência, permita-me expor as falhas do Governo Federal, que reputo como inaceitáveis e desnecessárias, porque temos recursos financeiros, talentos humanos e democracia para sairmos desse estado de pobreza que nos humilha perante os demais povos. 

O maior sinal da nossa patologia em termos de políticas públicas -o que precisa ser humildemente reconhecido pelo seu governo-, é, sem sombra de dúvida, o fato de sermos a sétima economia do mundo e o 79º país do planeta em Índice de Desenvolvimento Humano. 

Apesar de toda essa sorte de graves problemas sociais, que geram sofrimento para milhões e instabilidade política num país agora bastante dividido, reportagem recente da Folha de S. Paulo (29/09) prova que mais de 40% das promessas que Vossa Excelência fez em 2010 não foram cumpridas até hoje. 

Faço um apelo à Vossa Excelência. Apresente ao país -de modo claro que até o brasileiro mais humilde possa entender-, suas metas de governo e prazos para a realização do que foi prometido. Presidente, é fato, provado pela falta de infraestrutura que esteja à altura do poder econômico do nosso país, que o Estado brasileiro precisa ser gerido com mais eficiência -princípio constitucional basilar da administração pública. Como haver eficiência sem mecanismos de avaliação do desempenho do governo? Como fazer aferição do que não pode ser medido? Qual cobrança, contudo, pode ser efetiva se ministros e seus subordinados permanecem nos seus cargos apesar da sua ineficiência? 

Assumo o compromisso, perante o meu país, minha família e o Deus a quem sirvo, revelado no evangelho de Cristo, de celebrar cada conquista do seu governo, e apoiá-la em todo esforço de viabilizar a vida humana no Brasil, mas não me calar se o seu governo se resumir a dar comida ao pobre, sem garantir ao todo da população, a começar pelos excluídos, o direito à educação, à saúde, ao trabalho, ao lazer, à segurança e à vida.
Antônio Carlos Costa

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

A DIFERENÇA ENTRE O CÉU E O INFERNO

“Um menino chegou para o seu mestre e perguntou:

- Mestre, qual é a grande diferença entre o céu e o inferno?

- Nenhuma.

- Como nenhuma? Então, por que lutar para ir para o céu? E por que lutar para não ir para o inferno?

- Vamos fazer uma comparação. Para você, qual é a coisa mais importante do mundo?

- Para mim é uma panela cheia de arroz.

E o mestre disse ainda:

- O céu e o inferno são lugares que têm essas duas panelas de arroz.

- Então, qual é a diferença?

- Filho, quando a gente morre, a medida do nosso caixão é usada como modelo para fazer o cabo da colher eterna.

- Cabo da colher eterna?

- Conforme o tamanho da pessoa se faz o cabo da colher, e esse cabo é grudado em sua mão com uma cola especial e nunca mais sai. E no inferno é essa a tristeza, porque existe aquele panelão de arroz, e a pessoa tenta comer o arroz com uma colher com dois metros de cabo. As pessoas tentam comer, mas não conseguem, por isso começam a brigar.

- De que adianta ter arroz, de que adianta ter colher, se o braço é desse tamanho?

- O arroz não acaba, mas as pessoas morrem de fome. Isso é o inferno.

- E o céu, mestre?

- É a mesma coisa.

- Qual a diferença, então? No céu o cabo é mais curto?

- É do mesmo tamanho, e ás vezes chega a ser maior, porque acrescenta todas as boas obras que você fez.

- Ai é pior, então. Não entendo, mestre. Qual é a diferença?

- A diferença é que no céu estão aqueles que aprenderam a encher a colher e tratar o outro, e o outro, que está satisfeito, trata o outro, e o outro trata o outro.

Essa é a visão do mundo: as pessoas que se apegam as coisas pequenas transformam a panela de arroz em inferno. Onde todos têm dons, e cada um recebeu muitos dons, mas está querendo os dons só para si, e todos aqueles dons que queremos para nós mesmos acabam morrendo. É preciso aprender a partilhar: um precisa tratar o outro.”

(Extraído do livro: Buscai as Coisas do Alto, Pe. Léo, SCJ, páginas 16 a 18)

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

MAIS ALGUMA PERGUNTA? Por Ed René Kivitz

– Quem são vocês?
– Somos seguidores de Jesus Cristo.
– Então vocês são cristãos, como dizem por aí?
– Isso.
– Onde estão seus sacerdotes?
– Não temos sacerdotes.
– Mas todas as religiões têm seus homens sagrados.
– Isso nós temos.
– "Isso" o quê?
– Homens sagrados.
– Quantos são?
– Não fazemos a menor ideia.
– Como assim? Onde eles estão?
– Espalhados pelo mundo.
– Onde, por exemplo?
– Aqui.
– "Aqui" onde?
– Nós.
– "Nós" quem? Vocês?
– Isso.
– Ah, tá bom!
– …
– Quer dizer que vocês são os homens sagrados da religião de vocês.
– Não, não somos os homens sagrados da nossa religião. Somos apenas homens sagrados.
– Então vocês são sacerdotes?
– Mais ou menos.
– Mais ou menos como?
– Somos sacerdotes, mas não como você está pensando.
– E como eu estou pensando?
– Você está pensando que somos autoridades religiosas.
– E não são?
– Não.
– Por quê? Vocês são contra as autoridades?
– Não.
– Mas acabaram de dizer que não têm autoridades religiosas.
– Não, não foi isso o que dissemos. Você entendeu errado.
– Então o que é que vocês estão dizendo?
– Estamos dizendo que não somos autoridades religiosas.
– Mas são sacerdotes.
– Sim.
– Não estou entendendo.
– Não, não está.
– Então expliquem.
– Todos os seguidores de Jesus Cristo são sacerdotes.
– E quem é o maior entre vocês?
– Jesus Cristo.
– Mas ele está morto.
– Não, está vivo.
– "Vivo" como?
– Vivo, oras.
– Como "vivo, oras"?
– Vivo em nós, no meio de nós, sobre nós, exatamente aqui e agora.
– Aqui?
– Também.
– Em todo lugar?
– Isso.
– Somente Deus está em todo lugar.
– Então…
– Como assim? Vocês pensam que ele é Deus?
– Sim.
– Então vocês não são apenas seguidores de Jesus Cristo. Na verdade, são adoradores de Jesus Cristo.
– Isso.
– E onde fica o templo de vocês?
– Não temos templo.
– Como não têm templo?
– Não precisamos de templo.
– Por que não?
– Precisávamos de templo quando oferecíamos sacrifícios a Deus.
– E vocês não prestam mais culto ao seu deus?
– Daquele jeito, não.
– Que jeito?
– Sacrificando animais.
– E por que vocês não sacrificam mais ao seu deus?
– Nós sacrificamos.
– Mas acabaram de dizer que não oferecem mais sacrifícios de animais.
– Isso.
– "Isso" o quê?
– Não sacrificamos mais animais.
– E por que não?
– Porque não é mais necessário.
– E por que não é mais necessário?
– Porque Jesus Cristo é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.
– Então vocês não precisam mais prestar culto ao seu deus?
– Você ainda não entendeu.
– Então expliquem!
– Não precisamos mais ir ao templo oferecer sacrifícios de animais. Mas isso não significa que não prestamos culto ao nosso Deus.
– E que tipo de sacrifício vocês oferecem ao deus de vocês?
– Nós mesmos.
– Como assim?
– A nossa vida toda é um sacrifício a Deus.
– Como assim?
– Tudo o que fazemos, fazemos para a glória do nosso Deus.
– "Tudo" o quê?
– Tudo. A vida toda é um culto a Deus.
– Tudo, tudo?
– Pelo menos é o que tentamos.
– Mas há uma coisa especial que vocês fazem como um ato de adoração ao seu deus?
– Sim e não.
– Como assim?
– Não, porque, como dissemos, tudo o que fazemos é ato de adoração. Porque na verdade não é o que fazemos ou deixamos de fazer que é o ato de adoração, mas nós mesmos, isto é, a nossa vida em si.
– Como assim?
– Você não ouviu a gente dizer que somos seguidores de Jesus Cristo?
– Sim. E daí?
– Daí que seguimos os passos dele. E se ele morreu, também morremos. E se ele ressuscitou pelo poder de Deus, nós também ressuscitamos. E agora não vivemos mais para nós mesmos, mas para o nosso Deus, que nos deu vida.
– Acho que estou entendendo.
– Mesmo?
– Sim. Vocês não têm sacerdotes, não têm templo, não oferecem sacrifícios de animais.
– Isso.
– Mas vocês têm uma coisa especial que fazem como ato de adoração ao seu deus?
– Sim e não.
– Já entendi a parte do "não". Vocês não têm uma coisa especial porque tudo o que fazem é adoração. Na verdade, vocês mesmos são o ato de adoração, porque agora vivem para o deus de vocês.
– Isso.
– Mas e a parte do "sim"?
– A parte do "sim" é que temos, sim, uma coisa especial que fazemos para o nosso Deus.
– O quê?
– Cuidamos das pessoas.
– Quais pessoas?
– Aquelas de quem somos próximos.
– Como assim? Quem são elas?
– Todas as que cruzam o nosso caminho.
– Eu, por exemplo?
– Sim, você.
– Mas, como assim, cuidam das pessoas como ato de adoração? Então vocês adoram as pessoas?
– Não, não é isso. É que vemos Jesus Cristo nas pessoas, especialmente naquelas que estão sofrendo, nas que têm fome, sede, estão presas, doentes, por exemplo.
– Acho que está ficando mais claro…
– Que bom que está entendendo.
– Deixa eu ver se entendi.
– Fala.
– Vocês não têm templo porque não precisam mais fazer sacrifícios, e por isso não precisam mais ir ao templo.
– Isso.
– Pelo mesmo motivo não têm sacerdotes, pois não precisam mais de pessoas que façam os sacrifícios por vocês, já que vocês, isto é, a vida de vocês é que é o sacrifício.
– Muito bem.
– De fato, tudo o que vocês fazem é para o deus de vocês, especialmente cuidar das pessoas que precisam.
– Isso.
– Tenho mais uma pergunta.
– Pois não.
– Qual é o dia sagrado de vocês?
– Também não temos.
– Vai dizer que vocês vivem desse jeito todos os dias?
– Nossos antepassados tinham um dia sagrado: o sábado. Mas isso era no tempo quando precisávamos ir ao templo levar os animais para que os nossos sacerdotes fizessem os sacrifícios. Agora que nos entregamos ao nosso Deus como sacrifício vivo, o verdadeiro ato de adoração é viver para ele.
– E como é que vocês vivem para Deus?
– Vivendo para o próximo.
– Então todos os dias são sagrados para vocês?
– Isso.
– Essas coisas que vocês disseram têm um nome?
– Explique melhor.
– Isso aí é o que chamam de Cristianismo?
– Não.
– Mas o Cristianismo não é a religião de Jesus Cristo?
– Não.
– Como não?
– Cristianismo é a religião de Constantino.
– O imperador romano?
– Isso.
– Por quê?
– Porque foi Constantino quem começou a montar de novo tudo o que Jesus Cristo havia desmontado.
– Como assim?
– Jesus ensinou que não precisamos mais de templos, sacerdotes, sacrifícios e dias sagrados. Ensinou que Deus é espírito e importa que os que o adoram, o adorem em espírito e em verdade.
– Isso é o que vocês dizem que é fazer da própria vida um ato de adoração?
– Isso mesmo.
– E o tal do Constantino?
– Então: foi ele quem começou a construir templos dedicados a Deus, oficializou um dia da semana para os cultos, inventou que prestar culto a Deus é uma coisa que se faz nos templos, nomeou sacerdotes, e começou essa confusão que você está vendo.
– Então isso que vocês explicaram não tem nome?
– Tem.
– E qual é?
– Evangelho.
– Ah, já ouvi falar, mas pensava que era a mesma coisa que Cristianismo.
– Mas não é.
– Sei.
– …
– Mas tem mais uma coisa que não estou entendendo.
– O que é?
– Só mais uma pergunta.
– Pode fazer.
– Por que é que inauguraram um Templo de Salomão em São Paulo?
– Não sabemos.
– Mas eles também não são seguidores de Jesus Cristo?
– Também não sabemos, pergunte para eles.