"Temos esta Esperança como âncora da alma, firme e segura, a qual adentra o santuário interior, por trás do véu, onde Jesus que nos precedeu, entrou em nosso lugar..." (Hebreus 6.19,20a)
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domingo, 16 de janeiro de 2011

VIVENDO SEM MÁSCARAS por Ed René Kivitz

Entre os anos de 1819 e 1880 viveu em San Francisco, um homem que se autodenominava Norton I, Imperador dos Estados Unidos. Vivia e agia como tal e era acatado pela sociedade com todas as honras. Sua companhia era aceitável, sua presença em festas e eventos era disputada e seu apoio sempre desejado para toda e qualquer causa. Imprimia seu próprio dinheiro, que nenhum dono de restaurante ousava rejeitar. Uma legítima nota de cinqüenta centavos de dólar do Norton I hoje é comercializada por mais de 500 dólares. Mais de 10 mil pessoas compareceram ao seu funeral, revelando o quanto valorizavam sua excentricidade.

Desde que a ouvi num documentário do GNT achei a história maravilhosa. Já dediquei horas em devaneios a respeito de Norton I e seu império particular. De vez em quando suscito uma discussão com amigos para saber o que eles aprendem com esta história. O que mais me chamou à atenção foi o fato de que você pode construir uma identidade falsa a seu respeito, e não faltarão pessoas para acreditar, alimentar e até mesmo tirar proveito da sua mentira.

Na verdade, acho que todo mundo cresce construindo uma identidade falsa a respeito de si mesmo. Desde a infância, quando sofremos as projeções dos pais e da família, passando pela adolescência, período quando precisamos encontrar um jeito de sermos aceitos e admirados pela turma, chegando à fase de definição de carreira e casamento, até este mundo fake, cuja moeda mais valorizada é a imagem e onde ninguém vale mais do que seu lay-out. Aos poucos vai deixando de ser importante o que de fato somos, para que entre em cena algo que nos tornamos, ou por escolha própria, ou por pressão de outros. A menina que disputava o amor do pai e o menino que disputava o amor da musa da escola crescem e se tornam a executiva que disputa a admiração do seu homem e o empresário que quer provar pra todo mundo que é melhor do que o irmão dele sim.

A maioria das pessoas funciona como matéria de retro-alimentação dessa loucura coletiva de identidades de mentirinha e infelicidades crônicas. Ninguém se atreve a tirar as máscaras, e muito menos denunciar as máscaras dos outros. Sobrevivemos de tapinhas nas costas e elogios evanescentes. Mal de época. Tempos em que ser celebridade é mais importante do que ser gente. Dias em que para ser celebridade vale tudo, até prostituir a identidade. Mundo de caras e bocas, onde os seduzidos pelos flashes e spots não buscam outra coisa senão a notoriedade, a admiração, o comentário invejoso dos demais boçais. Pessoas esculpidas, gente de plástico, corpos e caras de mentirinha, admirados e exibidos como verdadeiros – bolhas de sabão: perfeitos apenas de relance. Simulacro: sanduíches bonitos apenas na fotografia.

Alguém disse que a máscara, se lhe dermos tempo, torna-se o próprio rosto. Aí acontece o que Orlando Tejo, poeta de cordel, cantou

Eu briguei com um cabra-macho
mas não sei o que se deu
eu entrei pru dentro dele
ele entrou pru dentro deu
e num zuadão daquele
não sei se eu era ele
nem sei se ele era eu.

Isto é, a gente já não sabe quem é quem dentro da gente, desconhece quem mora na nossa cara, quem domina o pedaço que acreditávamos nosso corpo.

Mas tem sempre o dia em que a casa cai. Graças a Deus. O Lulu Santos tem razão, pois tem mesmo

dias que a gente olha pra si
e se pergunta se é mesmo isso ali
que a gente achou que ia ser
quando a gente crescer
e a nossa história de repente ficou
alguma coisa que alguém inventou
e a gente não se reconhece ali
no oposto de um dejavú.

Por estas e outras é que acredito que a maturidade implica necessariamente na descoberta do si mesmo. A questão primária para todo ser humano é responder a pergunta que Adão ouviu de Deus logo após o seu pecado, “Onde estás?”, que não visa a descoberta de uma localização geográfica, mas sim existencial. O significado desta experiência paradigmática para a raça humana é a afirmação de que o ser humano que está alienado de deus está também alienado de si mesmo, e nesse caso, o reencontro com Deus é necessariamente um reencontro com o si mesmo. É mais ou menos com o se Deus estivesse se dirigindo a cada pessoa e perguntando “Onde estás?”, ou em outras palavras, “onde está seu eu verdadeiro, quem é você por trás dessa máscara?”. Nesse sentido, “onde estás?” é uma pergunta muito próxima de “quem é você?” Algo do tipo “Que você não é Norton I, imperador dos Estados Unidos, eu sei. Então, quem é você?”

Meu amigo Alisson, cuja memória honro com saudade, captou isso perfeitamente:

Quando olha bem no íntimo
através do teu sorriso
o que será que Deus vê?
bem além da tua lógica
bem atrás de toda estética
o que será que Deus vê?
um coração aflito, um espírito ferido
e uma alma já cansada de representar
alguém desconfiado, sem um verdadeiro amigo
a quem possa se abrir sem se envergonhar
Quando Deus te investiga
bem no âmago da vida
lá no teu eu verdadeiro
é que ele quer por inteiro
transformar a tua essência
num batismo de alegria
verdadeiramente livre te fazer.

Os verdadeiros amigos não são aqueles que nos dão tapinhas nas costas e vivem alimentando nossos egos falsos. Amigo é aquele que nos ajuda a enxergar a verdade a respeito de nós mesmos. Amigo é quem nos coloca de frente pro espelho. Isso exige honestidade, coragem, aceitação, perdão, encorajamento na direção da transformação, disposição de permanecer ao lado, caminhando junto, depois que cai o pano.

Não sabemos quem se escondia por trás de Norton I. Não sabemos também do que ele se escondia, ou de quem fugia, porque precisou se proteger daquela maneira. Ninguém conseguiu fazer com que ele despisse sua fantasia. Sequer sabemos se houve quem tentasse. Norton I é uma vida desperdiçada no esforço de conseguir as melhores mesas nos restaurantes, viajar sempre de primeira classe, se hospedar nos melhores hotéis, receber convites para eventos badalados, passar dias em ilhas e castelos, assistir os espetáculos nos camarotes vips e acumular mimos de marcas famosas.

O mais triste dessa história é que Norton não é uma personagem, ou um indivíduo desequilibrado. Norton é o nome científico de um tipo de gente. Aquele foi Norton I, depois dele vieram muitos outros. Gente que não entendeu ainda o que ensinou o rei Salomão, esse sim uma celebridade de seu tempo: “maior é aquele que conquista a si mesmo do que aquele que conquista uma cidade”. As ruas estão cheias de Nortons I. A maioria deles não está nem mesmo preocupada em conquistar a cidade. Basta-lhes aparecer numa festa, numa capa de revista, ou numa retina qualquer de outro Norton se consumindo de inveja.


Ed René Kivitz
http://www.edrenekivitz.com/
...
Um possível diagnóstico, para quem não tem medo de espelhos:
A LISTA - Oswaldo Montenegro -
...
Para quem deseja se livrar das máscaras, em todo um processo há sempre o primeiro passo:
Uma singela oração que nos ajuda a começar viver sem máscaras...
"Tu és o Deus das alvoradas, o Deus das vigílias noturnas, o Deus dos picos das montanhas e o Deus das profundezas dos mares; mas, Deus meu, minha alma tem horizontes mais vastos do que as alvoradas, as trevas mais densas do que as noites da terra, picos mais altos que qualquer montanha, profundezas maiores que qualquer mar. Tu, que és o Deus de tudo isso, sê o meu Deus. Não posso atingir as alturas nem as profundidades; há motivações que não consigo desvendar, sonhos que não posso alcançar — meu Deus, sonda-me".
Oswald Chambers -Salmo 139

Walter McAlister - Máscara

quarta-feira, 5 de maio de 2010

A ESTRADA MENOS PERCORRIDA por Gerson Borges


Sou um jornalista. Não, não um profissional da imprensa escrita, televisiva ou do rádio. Sou jornalista no senso da palavra inglesa para o registro diário (ou quase) da vida, "journal writing". Mantenho um diário (ou semanário, vá lá) aonde anoto minha jornada existencial. Comecei simplesmente registrando leituras bíblicas e seus significados, hábito da adolescência. O que Deus me falava ao coração ficava gravado nos meus cadernos. Logo percebi que era bom e espiritualmente animador tomar nota de frases significativas das minhas leituras.

Se era uma idéia boa, um insight inusitado, algo criativo ou perturbador da consciência, caderno nele. Desenvolvi o hábito da leitura sublinhada e anotada. Até a coisa virar terapia. No começo da vida adulta, fui percebendo que, ao escrever sobre acontecimentos diários, coisas pequenas, efemeridades e crises terríveis, desesperos, a alma respirava aliviada. O coração (re) animava-se. A vida voltava aos trilhos do comum e do extraordinário. E tudo isso debaixo do olhar afetuoso de Deus, a cada passado da jornada.

Jornada.

Esse é mesmo um nome adequado para a Vida Espiritual. Um passo por dia, um dia por passo e a vamos caminhando. Escrever sobre o itinerário, as estradas, os caminhos e descaminhos da jornada é quase a jornada em si. Christina Baldwin, em seu livro "Life’s companion", concebe a prática de manter um Diário Espiritual como "uma busca espiritual". Penso que Anne Frank, ao registrar seus pensamentos e sentimentos, suas angústias e pavores do horror nazista no seu Kitty, nome que dava ao seu diário, de modo algum imaginava que, por ter sido preservado por Miep Gies, ao ser publicado em 1947 chegaria aonde chegou, traduzido em 68 línguas e um dos livros mais lidos do mundo. O que ela queria, nas palavras de outro sobrevivente da barbárie de Hitler, Victor Frankl, era "um desejo e uma vontade de sentido".

Sentido.

Escrevo Diários não porque a minha vida faz sentido, mas para dar sentido à minha vida. Religião pode ser muito irrelevante e sem significado, denuncia a obra-prima de Thomas Merton, "A montanha dos sete patamares". Nesse livro, extremamente íntimo e pessoal, o escritor e monge trapista narra o vazio da sua infância e adolescência como protestante nominal. Aliás, Merton é um dos meus jornalistas preferidos. Seus Diários são uma vigorosa e apaixonada mistura de poesia e oração. O sinal de Jonas é um exemplo: "Nada deve atrapalhar um monge de orar, nem mesmo escrever um livro", ele diz com gostosa ironia. As duas coisas se confundem e se misturam o tempo todo quando quando se mantém um Diário Espiritual, a narrativa pessoal e a oração.

Oração.

Quando escrevemos nossa oração, a exemplo dos salmistas, orar é diferente. As frases feitas, as expressões religiosas vagas, vazias e vãs podem, afinal, ser percebidas. Pensamos no que escrevemos ainda que nem sempre escrevamos o que pensamos, já que, como diz Henri Nouwen, outro ardoroso escritor de maravilhosos Diários, "escrever assim é um ato de confiança”. Não sabemos aonde a caneta vai nos levar. Mas nos submetemos aos fluxos da alma, às correntezas do coração e da mente, ao fruir da vida interior. Os Diários de Nouwen, como "The Genesee Diary", em que ele relata de modo imensamente inspirativo sua experiência sabática num Mosteiro Trapista (sim, Nouwen foi influenciado diretamente pela literatura e espiritualidade, arte e devoção de Merton), ou "O caminho do amanhecer", sua narrativa da renúncia do cargo de professor titular em Harvard para cuidar de deficientes na Arca, no Canadá.

Luz e sombra. Fé e dúvida. Paz interior e angústia espiritual. Isso tudo nos é comum. O que não é comum é desfrutar dos benefícios que brotam no hábito de mapear esses sentimentos e experiência numa narrativa.

Narrativa.

Lucy Shaw, escritora anglicana que admiro, professora do Regent College e amiga próxima de Eugene Peterson, uma vez proferiu uma conferência intitulada "A Palavra Narrada: As Implicações Teológicas da Estória" ("A Narratable Word: The Theological Implications of Story") e, nessa criativa palestra, Shaw ensina:

"Narrativa é uma palavra originalmente derivada da expressão latina noscer - conhecer – e um outra com a qual se relaciona, gnarus, conhecer, saber algo. Talvez seja, portanto, outra forma de dizer que estórias, narrativas, é o modo por meio do qual tomamos conhecimento do mundo".

Sim, é isso mesmo. Ao narrarmos nossa vida, tomamos conhecimento dela, entramos em contato com nossa realidade e notamos como estamos inseridos numa narrativa maior, humana e divina. A Bíblia é narrativa e poesia. Muito pouco na Bíblia é discussão, defesa argumentativa, etc. Talvez as Cartas de Paulo. Mesmo assim, sua criatividade e inteligência, inspiradas pelo Espírito Santo, fazem da conversa teológica um coisa muito, muito bela – e pessoal. Paulo faz uma teologia na primeira pessoa visando a Comunidade. Paulo, ao contrário de muitos filósofos e teólogos, não é uma abstração, é uma pessoa.

Pessoa.

Somos tão complexos, não é mesmo? Podemos ter tanto know how profissional, tantos saberes e competências técnicas, mas e quanto à nossa alma, o que sabemos? Num tempo quando o neo-ateísmo de Dawkins, Hichtens e Harris, entre outros, zombam da idéia da espiritualidade cristã ao afirmarem que a alma é a mente e a mente é química e eletricidade facilmente mapeada pelo computador medicinal, pergunto: o Homo Sapiens, o " Home-que-sabe", nós, da sociedade da informação, sabemos quem somos? Basta ler o jornal (no outro sentido) e responder que... não.

Buscamos a resposta fora de nós. Quem nos define, por exemplo, é o consumismo. O homem de hoje é aquilo que ele consome. Basta olhar ao redor e ver outdoors ambulantes a serviço das grandes corporações. Outro dia dei risada ver uma foto do presidente Lula ao lado de Fidel Castro, que usava um casaco da ...Nike. Sabe o que é o homem, eu e você? Contradição.

Contradição.

Ser inimigo do que se diz. Contrariar o que se afirma. Dizemos que amamos. E matamos uns aos outros sem parar. Dizemos que cremos em Deus. E vivemos como se Ele não existisse. Dizemos que a natureza é boa e bela. E a destruímos pouco a pouco – ou muito a muito – como, no século passado e nas últimas décadas.

Só me dou conta da imensa contradição que eu sou quando olho para dentro de mim. Isso se dá de modo único quando escrevo meu dia-a-dia, minha noite-a-noite, quando descrevo e narro minha jornada. Narrar, nas orações simples do meu diário espiritual, tristezas, frustrações, conquistas, alegrias, chegadas, partidas, vitórias e vergonhas – eis o que mais me aproxima de Deus, de mim mesmo e dos outros.

O ato de auto-narrar a minha vida pode ser dito de outro modo pelas pavras de M. Scott Peck, psicanalista cristão: "a estrada menos percorrida". Temos medo do que se revela nas páginas de um caderno sincero. Temos medo do que se esconde nos nosso pesadelos ou mesmo nos sonhos bons. Mas, por exemplo, escrever os sonhos assim que se acorda é uma grande ferramente de auto-conhecimento, como me ensinou meu querido Osmar Ludovico.

Tenho dado um passo para frente e dois para trás nessa história. Tem épocas que nem sem onde foi parar o tal caderno. Outros momentos, eu encho páginas e páginas, num frenesi catársico que só Deus e eu testemunhamos. Mas eu não vivo mais sem meus diários. Meus diários mudaram a minha vida. (D)Escrevo meus problemas neles e deixo descansando. Sem narrar o que a vida me dá e me toma, o que eu gozo ou perco, o que eu experimento da Graça dentro da graça dentro da graça, como viver? A Salvação é uma jornada que começa agora.

Gerson Borges, pastor da Comunidade de Jesus em São Bernardo, é poeta e músico. Foi de umas de suas músicas que tomei emprestado o sub-título deste blog... "Jesus Nazareno é tudo que eu tenho pra te dar".
http://www.cristianismocriativo.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=507&Itemid=31