terça-feira, 8 de julho de 2014
A VIDA DEVOCIONAL por Osmar Ludovico
sexta-feira, 13 de julho de 2012
AMOR À PALAVRA | Edvar Gimenes
Todos sabemos que a palavra de Deus não se resume à Bíblia. A própria Bíblia nos informa que Deus falou a Abraão, 430 anos antes de Moisés (Gal. 3:17), quando não havia um único texto das Escrituras Hebraicas. Fala também de outras formas de comunicação usadas por Deus, quando declara: "Há muito tempo Deus falou muitas vezes e de várias maneiras aos nossos antepassados por meio dos profetas, mas nesses últimos dias falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas e por meio de quem fez o universo." (Heb. 1:1-2)
Deus não se calou. Ele continua falando e usa as maneiras que julga necessárias. Deus é soberano.
Contra fatos, argumentos contrários se enfraquecem.
Os cristão podem se dividir quanto a forma de interpretar a Bíblia, mas há quase unanimidade em sua inspiração e autoridade.
Não sou bibliólatra, mas pertenço ao grupo que crê na inspiração e reconhece a autoridade da Bíblia.
Até aqui não o neguei e me empenho em ser cristão, não no sentido político-doutrinário da palavra, mas na busca por identificar-me com a vida e ensino de Jesus, disponíveis nos evangelhos.
Não consigo ser pastor sem a Bíblia. Os membros das igrejas por onde passei podem testificar que ela sempre foi o livro texto de minhas mensagens e estudos.
Também não consigo viver sem estudá-la. Ela é o ponto de partida em minhas buscas por respostas a questões existenciais presentes em minha alma.
Por isso, sem fazer coro ao discurso e à política fundamentalista em torno da Bíblia, seria desonesto comigo mesmo se não declarasse a relação amorosa que mantenho com ela, desde que ouvi as primeiras referencias a ela pelos lábios de meus pais.
Reconheço que amadureci, palavras ganharam significados alternativos e construi novos referenciais de interpretação. Mas ela continua sendo o centro de minhas reflexões teológicas e o ponto de partida para as escolhas que tenho feito na vida.
Sobretudo, amo a "Palavra" por ser o único documento existente que revela a vida e ensinos de Jesus.
Amo a "Palavra", porque amo a Jesus. Porque ele é a palavra que se fez carne e habitou entre nós. Ele é a chave que uso para abrir abrir fendas que me ajudam a enxergar, quando me deparo com pontos escuros, cheios de mofo até, deste livro. Embora seja o mais criticado, mais combatido em toda a história da humanidade e até abusado por ignorância ou falta de escrúpulo, é o mais lido e que maior impacto tem causada à vida humana.
Por isso amo a Palavra.
Edvar Gimenes
Amor à Palavra - 13.07.12 -82/100 dias de oração pelo Brasil
http://www.blogdoedvar.blogspot.com.br/2012/07/amor-palavra-130712-82100-dias-de.html
sábado, 17 de março de 2012
SIMPLICIDADE e PERMANÊNCIA por Ricardo Barbosa
Em uma dessas cartas, o Diabo reconhece que o verdadeiro problema dos cristãos é que eles são “simplesmente” cristãos. O laço que os une é a vida comum que eles têm em Cristo. Ele então aconselha seu sobrinho: “O que nós desejamos, se não houver mesmo jeito e os homens tiverem de tornar-se cristãos, é mantê-los num estado de espírito que eu chamo de cristianismo e alguma outra coisa [...]. Substitua a fé em si por alguma moda com colorido cristão. Faça com que tenham horror à Mesma Coisa de Sempre”.
A “mesma coisa de sempre” nos deixa entediados. Ser “simplesmente” cristão, para muitos, não é suficiente. Precisamos de coisas novas. Sempre. Modelos novos de igreja, um jeito diferente de cantar, formas inovadoras de culto, estratégias sofisticadas de crescimento, e por aí vai. Somos movidos pelas novidades, não pela profundidade. Nosso interesse está na variedade, não na densidade.
O reverendo A. W. Tozer, num artigo intitulado “A velha e a nova cruz”, comenta o mesmo fenômeno: “Uma nova filosofia brotou dessa nova cruz com respeito à vida cristã, e dessa nova filosofia surgiu uma nova técnica evangélica -- um novo tipo de reunião e uma nova espécie de pregação. Esse novo evangelismo emprega a mesma linguagem que o velho, mas o seu conteúdo não é o mesmo e sua ênfase difere da anterior”.
O Diabo, na carta ao seu sobrinho aprendiz, diz: “O horror pela mesma coisa de sempre é uma das mais preciosas paixões que incutimos no coração humano -- uma fonte infinita de conselhos estúpidos, de infidelidade conjugal e de inconstâncias na amizade”. A lista poderia se estender, mas o que se encontra por trás desse “horror pela mesma coisa de sempre” é a grande atração pelo novo seguida de uma profunda distração pelo essencial. O que a novidade faz é direcionar nossa atenção para outras preocupações, dando mais valor aos meios e não aos fins.
A formação espiritual cristã sempre requereu, basicamente, obediência a Cristo no seu chamado a proclamar o evangelho, fazer discípulos, integrá-los numa comunidade trinitária e ensiná-los a guardar a sua palavra. Ensiná-los a se comprometerem com o serviço como expressão de amor para com o próximo e com o cultivo e a prática de disciplinas espirituais como oração, jejum, arrependimento, confissão, leitura e meditação nas Escrituras e contemplação.
Não importa o quanto nossas igrejas e ministérios sejam sofisticados. Não importa o volume de novidades e tecnologias que oferecemos. Se no final não encontrarmos as mesmas coisas de sempre, significa que nos perdemos com o meio e não alcançamos o fim.
Existem dois aspectos que considero fundamentais na experiência espiritual cristã: simplicidade e permanência. Quando perguntaram para Jesus como o reino de Deus viria, ele respondeu afirmando o seu caráter discreto. Não viria com grande estardalhaço. Se estabeleceria dentro daqueles que o confessam como Senhor e Rei. Jesus apresenta um evangelho que transforma de dentro para fora. O que o vaso contém é infinitamente maior e mais valioso que o vaso. Ele cresce como uma pequena semente de mostarda. A simplicidade está na natureza própria do evangelho.
A permanência define o caráter pessoal e relacional da fé. Permanecer em Cristo é permanecer ligado como galho na videira. É somente nessa permanência que recebemos de Cristo sua vida e a transmitimos aos outros. Permanecer é mais do que conhecer -- é manter-se em constante e dinâmico relacionamento. As novidades não transformam o caráter; a permanência, sim. Para C. S. Lewis, a maturidade é algo que “todos alcançam na velocidade de sessenta minutos por hora, independentemente do que façam e de quem sejam”.Ricardo Barbosa de Sousa
http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/327/simplicidade-e-permanencia
domingo, 1 de janeiro de 2012
LEIAMOS A BÍBLIA!
Primeiro palestra da série de 8 do Conheça sua Bíblia:
Bíblia, palavra de Deus - Parte 1 from IBAB on Vimeo.
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
FORMAÇÃO ESPIRITUAL, O QUE É ISSO? BM
Diante do que entendo ser cristão e da distância em que nos encontramos do ideal, surgem do profundo do meu ser perguntas que não querem se calar, tais como: Porque depois de receber pela fé a salvação e o perdão dos pecados aquela vida abundante (vida eterna) que Cristo nos prometeu parece mais uma utopia do que realidade? Porque se recebemos o Espírito Santo de Deus, que é o selo de nossa redenção e filiação, ainda nos lambuzamos no lamaçal do pecado e caminhamos nas pisadas da desobediência de Saul e não nas de obediência do nosso Senhor?
Lembro-me dos meus primeiros escritos como seminarista, precisamente no primeiro sermão para a disciplina de homilética em que questionava: “O evangelho Segundo Mateus 1:21 diz o seguinte: ‘ela dará a luz a um filho e lhe porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos pecados deles’. Se Jesus veio nos salvar dos nossos pecados, Qual a razão de vermos tantos cristãos doentes e afligidos pelo pecado, vivendo constantemente em derrota? Por que é que tantas pessoas que se dizem convertidas, não produzem frutos, nem mostram com sua vida o exemplo de JESUS CRISTO? Será que estamos formando discípulos do Cristo ressurreto ou estamos formando meros seguidores de uma religião vazia e sem vida?”
Vejo então que persisto numa inquietação bem antiga e assim como Paulo quase que me desespero: Desventurado homem que sou! - e pergunto: Quem me livrará do corpo desta morte? Mas sei, assim como Paulo, que a morte e o pecado já foram derrotados na cruz e os escritos de dívida que eram contra nós foram ali quitados, contudo creio também que existe uma vida melhor do que essa sobre-vivida por milhões de cristãos no mundo inteiro. Sei que existe porque Jesus prometeu. Ele nos disse que nos daria vida abundante, uma vida em que o pecado não é mais vitorioso, mas sim a graça de Deus, e a imagem de Cristo em nós e o seu bom perfume se tornam manifestos.
FORMAÇÃO ESPIRITUAL, O QUE É?
“Pouca fé é necessária para nos levar ao céu, mas muita fé é necessária para trazer o céu a terra”. Esta frase atribuída a Lutero se parece com a oração do Senhor “...Venha a nós o teu Reino” e mostra esta busca de experimentar, agora, a Vida Eterna que Jesus nos outorgou com o advento do Reino de Deus “...A ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus” (Rm 8.19). Mas como obter essa vida hoje? Será somente por falta de fé que ela não se manifesta? Alguém já a viveu? Será que existe um método e este serve para hoje? O que faço e como faço? Existe algum segredo, qual é? Alguém já disse que o problema na vida não está em obter as respostas corretas, mas fazer as perguntas certas.
A primeira grande questão é que para fazermos as perguntas certas temos que pensar corretamente, mas como assim? Pensar corretamente neste caso é buscar conhecer dentro das escrituras e da tradição cristã como esse tema é tratado. Após esse conhecimento prévio temos então a missão de contextualizá-lo. Daí poderia surgir uma primeira pergunta: Qual é a minha a formação espiritual? Eu poderia começar dizendo que sou um cristão 'evangélico' que conheceu a Cristo ainda na adolescência, participante de tais e tais comunidades e que em momentos pontuais foi marcado por experiências espirituais bem significativas. Tudo bem isso é real para mim e você, mas existe por trás destas experiências uma teologia que nos levou a crer, pensar, e ser como somos, será que já paramos para repensá-la à luz deste conhecimento?
Formação espiritual é o processo que nos leva a crer, pensar, ser e agir como agimos. Nos dizeres de A W Tozer: “A mais importante afirmação sobre quem somos é aquilo que acreditamos sobre Deus”. Desta forma TODO mundo tem uma formação espiritual independentemente da religião confessada, inclusive o ateu, pois aqui o mais importante é o conceito que construímos de Deus e como isto nos leva a nos relacionarmos com Ele, consigo mesmo, com o próximo e com a natureza (mundo).
Assim queremos pensar este mesmo conceito de Formação Espiritual dentro da espiritualidade cristã, que passa a ser chamada Formação Espiritual em Cristo ou Cristã. A base são dois teólogos da atualidade que estão conjuntamente desenvolvendo este conceito, são os americanos Richard Foster e Dallas Willard fundadores de uma organização chamada RENOVARE ( www.renovare.org ), que recentemente recebeu uma versão brasileira chamada Renovare Brasil ( www.renovare.org.br ) com o objetivo de contextualizar esta visão com a nossa realidade tupiniquim.
A NECESSIDADE DA FORMAÇÃO ESPIRITUAL EM CRISTO
“No caminho cristão o que importa não é a velocidade com que estamos indo, nem a distância percorrida, mas sim a direção que tomamos”. A W Tozer
Como já vimos todos temos uma formação espiritual que não depende do credo abraçado, mas é por ele influenciado e de certa forma este determinará o tipo de visão que teremos de Deus e por conseqüência de nós mesmos e de mundo. Falando dentro de um contexto essencialmente cristão protestante evangélico como podemos avaliar o que temos feito e vivenciado a luz deste conceito Formação Espiritual em Cristo. Será que essa minha teologia formadora difere em alguma coisa daquilo que a Bíblia e a tradição nos sugere? A grande Comissão (Mateus 28) é o texto básico da teologia da Formação Espiritual em Cristo e o Dallas Willard diz que este tem sido nossa maior contradição por causa de nossa omissão. Um dos seus livros tem o título de A GRANDE (C)OMISSÃO.
O texto de Mateus que narra as últimas palavras de Jesus antes de ser assunto aos céus é a base da missão da Igreja: “Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo: Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide (indo), portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século”. (Mt 28.18-20). A Igreja de Cristo, agência do Reino de Deus entre os homens, tem como principal função fazer discípulos dEle, ensinando-os a guardar TUDO o que Ele ensinou. Prestemos bem atenção não é ensinar o que Ele disse, não somos professores somente, mas assim como Ele fez, precisamos através do viver mostrar como o amor a Deus e ao próximo se manifesta.
segunda-feira, 21 de março de 2011
RENOVANDO TODAS AS COISAS por Henri Nouwen
1. Trabalho árduo
A vida espiritual é um dom. É o dom do Espírito Santo que nos eleva para o Reino do amor de Deus, mas dizer que ser elevado para o Reino do amor é um dom divino não significa que vamos esperar passivamente até que o presente seja concedido a nós.
Jesus diz que nosso coração tem de estar no Reino. Pôr o coração em alguma coisa presume não só uma aspiração séria, mas também uma forte determinação. A vida espiritual requer esforço humano. As forças que nos desviam para uma vida cheia preocupações não são fáceis de superar.
Jesus exclamou: "como é difícil aos ricos entrar no reino de Deus!" (Mc 10.23). Para convecer-nos da necessidade do trabalho árduo, Ele diz: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me" (Mt 16.24).
2. A voz mansa e suave
Uma vida espiritual sem disciplina é impossível. Disciplina é o outro lado do discipulado. A prática da disciplina espiritual nos torna mais sensíveis à voz mansa e suave de Deus. O profeta Elias não encontrou Deus no vendaval, nem no terremoto, nem no fogo e sim no murmúrio de uma brisa (I Rs 19.9-13).
Através da prática da disciplina espiritual nos tornamos atentos para a essa voz suave e dispostos a responder quando a ouvimos.
3. De uma vida absurda para a vida obediente
De tudo o que já foi dito sobre a nossa vida cheia de preocupações, fica claro que sempre estamos rodeados por tanto barulho externo que é quase impossível ouvir o nosso Deus quando Ele está falando conosco. Muitas vezes tornamos-nos surdos, incapazes de saber quando Deus nos chama e de entender o que Ele fala. Assim, nossas vidas se tornaram absurdas.
Na palavra absurdo encontramos a palavra latina surdus que significa surdo. A vida espiritual requer disciplina porque precisamos aprender com Deus, que fala constantemente, mas a quem raramente ouvimos. Quando, porém, aprendemos a ouvir, nos tornamos obedientes.
A palavra obediência vem do latim audire, palavra que significa ouvir. A disciplina espiritual é necessária para a lenta jornada de uma vida absurda para uma vida obediente, de uma vida cheia de ruídos e preocupações para uma vida em que haja algum espaço livre interior, onde podemos ouvir o nosso Deus e seguir sua orientação.
A vida de Jesus foi uma vida de obediência. Ele estava sempre escutando o Pai, sempre atento à sua voz, sempre alerta à sua direção. Jesus era um "ouvinte pleno". Esta é a verdadeira oração: ouvir a Deus plenamente. O centro de toda oração é, de fato, ouvir, permanecer em atitude de obediência na presença de Deus.
4. O esforço concentrado
A disciplina espiritual, portanto, é o esforço concentrado para criar um espaço interior e exterior em nossa vida, onde esta obediência possa ser praticada. Por meio da disciplina espiritual impedimos o mundo de preencher nossas vida de tal forma que não há lugar para ouvir. A disciplina liberta-nos para orar, ou melhor dizendo, permite que o Espírito de Deus ore em nós.
5. Tempo e Lugar
Sem a solitude é praticamente impossível viver uma vida espiritual. A solitude começa com um tempo e um lugar para Deus, e só para Ele (Leia Mateus 6). Se crermos que Deus não apenas existe, mas também está ativamente presente em nossa vida - curando, ensinando e guiando -, precisamos separar um tempo e um lugar para Lhe dedicar nossa atenção total. Jesus diz: "Vá para seu quarto, feche a porta e ore ao seu Pai, que está em secreto" (Mt 6.6).
6. Caos interior
Buscar solitude em nossa vida é um dos aspectos mais necessários da disciplina e também a mais difícil das disciplinas. Embora desejamos a verdadeira solitude, também passamos por certa apreensão a medida que nos aproximamos do seu lugar e do seu momento. Assim que nós estamos sozinhos, sem pessoas para conversar, livros para ler, TV para assistir ou tefefone para falar, um caos interior começa.
O caos pode ser tão perturbador que não vemos a hora de voltar a atividade. Portanto entrar no quarto e fechar a porta não significa que eliminamos imediatamente do nosso interior todas as dúvidas, ansiedades, medos, más lembranças, conflitos não resolvidos, sentimentos de ira e desejos impulsivos. Pelo contrário, depois de nos afastar de todas as outras distrações, logo descobrimos que nossas próprias distrações se manifestam com força total.
Em geral utilizamos as distrações exteriores como proteção contra os ruídos interiores. Por isso não é de surpreender que tenhamos dificuldades em ficar sós. O confronto com nossos próprios conflitos pode ser muito doloroso de suportar.
Isto é o que faz com que a solitude seja muito importante. A Solitude não é uma resposta espontânea de uma vida ocupada e preocupada. Existem muitas razões para não estar sozinho. Portanto, devemos começar a planejar cuidadosamente nosso tempo de solitude.
7. Escreva claramente (Agende seu compromisso com Deus)
Cinco ou dez minutos por dia pode ser tudo o que podemos tolerar para começar nesta disciplina . A quantidade de tempo irá variar para cada pessoa de acordo com o temperamento, idade, profissão, estilo de vida e maturidade. Se não reservarmos algum tempo para estar a sós com Deus e escutá-Lo é porque não levamos a vida espiritual a sério. Talvez seja preciso anotar na agenda para que ninguém, nem nada, nos tire este tempo, assim poderemos dizer aos amigos, vizinhos, alunos, clientes ou pacientes: "Sinto muito já tenho um compromisso nesse horário".
8. Bombardeado por milhares de pensamentos
Uma vez que nós nos comprometemos a passar um tempo na solitude, desenvolvemos uma atenção à voz de Deus em nós. No início nos primeiros dias, semanas ou mesmo meses, possamos ter a sensação de que estamos apenas perdendo nosso tempo. O tempo em solitude no inicio pode parecer pouco maior que o tempo em que somos bombardeados por milhares de pensamentos e sentimentos que emergem das áreas ocultas da nossa mente.
Um antigo escritor cristão descreveu o primeiro estágio da oração em solitude com a experiência de alguém que, depois de anos vivendo com as portas abertas, resolveu fechá-las. Os visitantes acostumados de entrar na casa começaram a bater à porta, querendo saber porque não podiam entrar. Só de perceberem que não são ben-vindos pararam de vir.
Esta é a experiência de quem decide entrar na solitude depois de uma vida sem alguma disciplina espiritual. No começo surgem muitas distrações. Mais tarde, quando elas recebem menos atenção, elas lentamente se retiram.
9.Tentação de fugir
É claro que o que importa é a fidelidade à disciplina. No inicio a solitude parece tão contrária aos nossos desejos que ficamos constantemente tentados a fugir dela. O meio de escapar é através dos devaneios ou simplesmente cair no sono. Contudo, quando somos fiéis à nossa disciplina, na convicção de que Deus está conosco, mesmo quando não conseguimos ouvi-lo, aos poucos descobrimos que não queremos perder nosso tempo a sós com Deus. Embora não tenhamos grande satisfação com a solitude, descobrimos que um dia sem solitude é menos espiritual que quando a temos.
10. O primeiro sinal de Oração
Sabemos por intuição que é importante dedicar tempo a solitude. Até começamos a aguardar este momento de inutilidade. O desejo de estar em solitude geralmente é o primeiro sinal de oração, a primeira indicação de que a presença do Espírito de Deus não passa mais despercebida.
À medida que nos esvaziamos das nossas muitas preocupações, passamos a perceber não só com a nossa mente, mas também com o nosso coração, que nunca estivemos realmente sós, que o Espírito de Deus esteve conosco o tempo todo. Por isso começamos a entender as palavras de Paulo: "Sabemos que os sofrimentos produzem a paciência, a paciência traz a aprovação de Deus, e essa aprovação cria a esperança. Essa esperança não nos deixa decepcionados, pois Deus derramou o seu amor no nosso coração, por meio do Espírito Santo que Ele nos deu" (Rm 5.3-6).
11. O Caminho da Esperança
Por meio da solitude conhecemos o Espírito que já foi concedido a nós. Por isso, as dores e as lutas que encontramos em nossa solitude tornam-se o caminho da esperança, porque nossa esperança não se baseia em algo que vai acontecer depois de vencermos nossos sofrimentos, mas na presença real do Espírito restaurador de Deus em meio a esses sofrimentos e lutas.
A disciplina da solitude permite-nos entrar em contato com a presença esperançosa de Deus em nossa vida e nos permite também experimentar, mesmo agora, hoje, o início da alegria e da paz que pertencem (em plenitude) ao novo céu e a nova terra.
A disciplina da solitude, como a descrevo aqui, é uma disciplina eficaz para o desenvolvimento de uma vida de oração. É uma maneira simples, mas não fácil, de nos livrarmos da escravidão de nossas ocupações e preocupações e começar a ouvir a voz que renova todas as coisas.
Henri J. M. Nouwen - Extratos do Livro RENOVANDO TODAS AS COISAS, publicado em CLÁSSICOS DEVOCIONAIS de Richard Foster e James Bryan Smith Págs. 116-124, com algumas traduções próprias diretamente do inglês .
sábado, 5 de março de 2011
A SIMPLICIDADE INTERIOR E A VIDA INTEGRADA por Richard J. Foster
Nossa falta de integração
A simplicidade interior é o que pode produzir uma "pessoa integrada". Mas o que é uma pessoa integrada? É o contrário de uma pessoa desintegrada. Isto parece um trocadilho, mas é comparando os opostos que se tornam claros esses conceitos.
A pessoa desintegrada é aquela que perdeu a identidade como um bloco único. Parece que ela é um amontoado de pedaços: mãe, filha, estudante, trabalhadora, participante de um grupo etc. Isso tudo é uma realidade na nossa vida e não sei se há como fugir dela. O problema, no entanto, reside no fato de que a pessoa passa a viver uma vida em pedaços, não sabendo mais quem ela é. É como se ela fosse uma máquina realizando várias funções. Como o que sustenta essa máquina é a urgência dos compromissos, ela acaba realizando de modo automático várias coisas e não se apercebe mais daquilo que realmente lhe interessa, do porquê fazer aquelas coisas, enfim... É como se seguisse um fluxo sem saber por que o está seguindo. Passa a viver uma vida internamente dispersa, sem consciência, sem reflexão, sem integração.
Disparamos aqui e ali tentando desesperadamente cumprir as muitas obrigações que pesam sobre nós. Aos trancos, alternamo-nos entre os compromissos do trabalho e as responsabilidades da família. Enquanto estamos ocupados atendendo às necessidades de um filho ou cônjuge, sentimo-nos culpados por negligenciar as exigências do trabalho. Quando atendemos às pressões do trabalho, tememos estar falhando com a família. Naquelas raras ocasiões em que conseguimos equilibrar as duas com sucesso, as questões mais amplas da nação e do mundo sussurram chamados irritantes de serviço. Se alguém precisa de simplificação da vida, somos nós.
Dentro de todos nós existe um conglomerado de "eus". Há o eu tímido, o eu corajoso, o eu dos negócios, o eu que é pai ou mãe, o eu religioso, o eu literário, o eu enérgico. E todos estes eus são individualistas rudes. Nada de barganha ou transigência para eles. Cada um berra a fim de proteger seus interesses assegurados. Se é tomada uma decisão de passar uma noite tranqüila ouvindo Chopin, o eu dos negócios e o eu cívico se erguem em protesto ante a perda de tempo precioso. O eu enérgico anda de um lado para outro, impaciente e frustrado, e o eu religioso nos relembra das oportunidades perdidas de estudo ou contato evangelístico. Se a decisão é a de aceitar uma nomeação para o conselho de serviços humanos, o eu cívico sorri de satisfação, mas todos os eus excluídos fazem obstrução. Não admira que nos sintamos perturbados e divididos.
Na verdade, isso não é nenhum pouco estranho para nós. Quanto não conversamos entre nós sobre a organização do tempo e, por tabela, sobre esses muitos eus? Fazemos isso muitas vezes e a conclusão a que chegamos é que é necessário EQUILIBRAR as coisas. Ficamos como um mosaico todo feito de partes.
Achando o Centro
Senti isso durante longos anos, mas um fato mudou minha vida. Ainda me lembro da manhã chuvosa de fevereiro dentro de um aeroporto de Washington, D.C., muitos anos atrás. Exausto, afundei numa poltrona para esperar o meu vôo. Como sempre, eu havia levado material para ler a fim de aproveitar bem os momentos livres. Pela primeira vez na vida, abri o "Testamento de Devoção", de Thomas Kelly.
De pronto, ele me prendeu a atenção ao descrever perfeitamente a minha condição e a condição de tantos que eu conhecia: "Sentimos honestamente a tensão de muitas obrigações e tentamos cumpri-las todas. E ficamos infelizes, inquietos, tensos, oprimidos e temerosos de sermos superficiais."
Sim, eu tinha de confessar que me encontrava nestas palavras. Para todos os que me viam, eu estava confiante e no comando, mas por dentro estava cansado e disperso. Então meus olhos deram com palavras de esperança e promessa: "Temos pistas da existência de uma forma de vida imensamente mais rica e profunda do que toda esta existência frenética, uma vida de serenidade e paz e poder tranqüilos. Se tão somente pudéssemos adentrar suavemente esse Centro!"
Instintivamente, eu soube que ele falava de uma realidade além da que eu já conhecera. Por favor, entenda-me, eu não era ímpio ou irreverente, justamente o oposto. Meu problema era eu ser tão sério, tão preocupado em fazer o que era certo que me sentia compelido a atender a todo chamado para servir. E, afinal, eram oportunidades maravilhosas de ministrar em nome de Cristo.
Então me veio a sentença que daria início a uma revolução interior: "Temos visto e conhecido algumas pessoas que parecem ter encontrado este Centro profundo de vida, onde os chamados mal-humorados da vida estão integrados, onde o Não, bem como o Sim, podem ser ditos com confiança."
Esta capacidade de dizer Sim e Não a partir do Centro Divino me era estranha. Eu sempre orava a respeito das decisões, e, contudo, por vezes em demasia, respondia sobre se a ação me colocaria ou não numa luz favorável. Dizer "Sim" a apelos de ajuda ou oportunidades de servir geralmente trazia consigo uma aura de espiritualidade e sacrifício. Eu podia dizer "Sim" facilmente, mas não tinha a capacidade de dizer "Não". O que as pessoas pensariam de mim se eu recusasse?
Sozinho, permaneci sentado no aeroporto vendo a chuva bater contra a janela. Lágrimas caíram sobre meu casaco. Era um lugar santo, um altar, a poltrona onde eu me encontrava sentado. Eu jamais seria o mesmo. Silenciosamente pedi a Deus que me desse a capacidade de dizer "Não" quando isso fosse certo e bom.
O Teste
De volta à casa, fui de novo apanhado num turbilhão de atividades. Mas eu tomara uma decisão – as noites de sexta-feira seriam reservadas para a família. Foi uma decisão pequena na época. Ninguém além de mim realmente sabia a este respeito. Contei à família de uma maneira casual, indiferente. Eles não sabiam que era um compromisso com valor de pacto, uma decisão crucial. Para falar a verdade, nem eu sabia. Apenas parecia a coisa certa a fazer, dificilmente o que se poderia chamar de uma diretriz dada por Deus.
Mas então veio o telefonema. Era um executivo denominacional. Será que eu estaria disposto a falar ao seu grupo na sexta-feira à noite? Ali estava outra oportunidade maravilhosa.
Minha reação foi casual, quase inconsciente: "Oh, não, não posso."
A resposta também foi casual: "Oh, você já tem compromisso?" Senti que estava num beco sem saída.
Naqueles dias, eu não sabia que podia mui legitimamente dizer que de fato tinha um compromisso muito importante. Cautelosamente, mas com determinação, respondi simplesmente: "Não", sem tentar justificar ou explicar minha decisão.
Seguiu-se longo período de silêncio que pareceu durar uma eternidade. Eu quase podia sentir as palavras: "Onde está a sua dedicação?" vindas pelos fios telefônicos. Eu sabia que tinha tomado uma decisão que me fazia parecer menos espiritual a alguém com quem eu genuinamente me importava.
Após um momento, compartilhamos algumas amabilidades e ele desligou; mas quando o fone tocou o gancho, gritei intimamente: "Aleluia". Eu havia me rendido ao Centro. Havia tocado a margem da simplicidade, e o efeito era eletrizante.
Deus em Nós ou Nós em Deus?
É interessante como essa experiência me auxiliou a viver uma vida integrada. Eu não deixei de me dedicar ao trabalho de Deus, mas o que aconteceu foi que as demais coisas que fazia ganharam um novo status, um novo valor. Na verdade, comecei a reconhecer a Deus em todo o meu viver. Eu era profundamente comprometido, mas não estava integrado ou unificado. Achava que servir a Deus era outra obrigação a ser acrescentada a um horário já bem ocupado. Mas aos poucos passei a ver que Deus desejava estar, não nas bordas, mas no centro da minha experiência. A jardinagem já não era uma experiência fora do meu relacionamento com Deus – descobri a Deus na jardinagem. Nadar já não era apenas um bom exercício – tornou-se uma oportunidade para comunhão com Deus. Deus em Cristo se tornara o Centro.
Na verdade, o que precisamos não é trazer Deus para nossa vida, mas mergulharmos na vida de Deus. Falei antes de Deus estar na periferia da minha vida. Na realidade, seria mais correto dizer que eu estava na periferia da Vida de Deus. Era eu quem precisava entrar no Centro, no Cerne. Uma coisa é Deus entrar em nós (e uma coisa muito necessária), mas é bem outra nós entrarmos em Deus. No primeiro caso, ainda somos o centro da atenção; no segundo, Deus é o ponto focal.
Quando Deus entra em nós, ainda temos certa autonomia; quando entramos em Deus, estamos DENTRO. Ele está em tudo, e através de tudo, e acima de tudo. Isto não é um panteísmo infantil, como se Deus pudesse ser capturado sem sua criação; é um monoteísmo maravilhoso, majestoso – um Deus a partir de quem toda vida é sustentada. É vida a partir do Centro Divino.
O oposto de nos atirarmos em Deus e viver a partir deste centro me traz novamente à lembrança a canseira causada pela tentativa de equilibrar tantos "eus". Ter a Deus como Centro é entrar em um grande rio e deixar-se levar pela corredeira, não precisando remar, mas deixando-se levar. É um corpo que cedeu aos movimentos do rio, o rio de Deus.
Tenho notado que me desgasto interiormente muito antes de fazê-lo exteriormente. Portanto, preciso tomar cuidado para não me tornar um monte frenético de energia oca, ativo entre pessoas, mas destituído de vida. Preciso aprender quando me retirar, como Jesus, e experimentar o poder restaurador de Deus. Lemos que Pedro se demorou em Jope por muitos dias com um certo Simão, um curtidor (Atos 9.43). Ao longo de nossa jornada, precisamos descobrir numerosos "lugares de permanência", onde possamos receber o maná celestial.
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
HÁBITOS QUE TRANSFORMAM por Ricardo Barbosa
Sabemos que ler a Bíblia e orar todos os dias, ir aos cultos e participar da Ceia nunca foram, por si só, sinais confiáveis de espiritualidade, muito menos um caminho seguro para a maturidade. Muitas pessoas fazem isso por puro legalismo. Por outro lado, sabemos também que não fazer nada disso é um caminho seguro e certo para o fracasso espiritual.
domingo, 29 de agosto de 2010
NASCIDO DEPOIS DA MEIA-NOITE - Agosto mês de Tozer
Entre cristãos afeitos a avivamentos tenho ouvido este ditado: "Os avivamentos nascem depois da meia-noite". É um provérbio que, embora não inteiramente verdadeiro, se tomado ao pé da letra, aponta para algo bem verdadeiro.
Se entendemos que esse ditado significa que Deus não ouve a nossa oração por avivamento, se for feita durante o dia, evidentemente não é verdadeiro. Se entendemos que significa que a oração que fazemos quando estamos cansados e exaustos tem maior poder do que a que fazemos quando estamos descansados e com vigor renovado, outra vez não é verdadeiro. Certamente Deus teria de ser muito austero para exigir que transformemos a nossa oração em penitência, ou para gostar de nos ver impondo-nos punição a nós mesmos pela intercessão. Traços destas noções ascéticas ainda se encontram entre alguns cristãos evangélicos, e, conquanto esses irmãos sejam recomendados por seu zelo, não devem ser desculpados por atribuir inconscientemente a Deus algum vestígio de sadismo indigno até dos seres humanos decaídos.
Contudo, há considerável verdade na idéia de que os avivamentos nascem depois da meia-noite, pois os avivamentos (ou quaisquer outros dons e graças espirituais) só vêm para os que os desejam com angustiosa intensidade. Pode-se dizer sem reserva que todo homem é tão santo e tão cheio de Espírito como o deseja. Ele não pode estar tão cheio como gostaria, mas com toda a certeza está tão cheio como deseja estar.
Nosso Senhor colocou isto fora de discussão quando disse: "Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos". Fome e sede são sensações físicas que, em seus estágios agudos, podem tornar-se verdadeira dor. A experiência de incontáveis pessoas que procuravam a Deus é que, quando os seus desejos se tornaram dolorosos, foram satisfeitos repentina e maravilhosamente. O problema não consiste em persuadir Deus a que nos encha do Espírito, mas em desejar a Deus o suficiente para permitir-Lhe que o faça. O cristão comum é tão frio e se mostra tão contente com a sua pobre condição, que não há nele nenhum vácuo de desejo no qual o bendito Espírito possa derramar-se em satisfatória plenitude.
Ocasionalmente aparece no cenário religioso alguém cujos anelos espirituais insatisfeitos vão ganhando tanto volume e importância em sua vida, que expulsam todos os outros interesses. Tal pessoa se recusa a contentar-se com as orações seguras e convencionais dos enregelados irmãos que "dirigem em oração" semana após semana e ano após ano nas assembléias locais. Suas aspirações a levam longe e muitas vezes o tornam incômodo. Seus irmãos em Cristo, perplexos, sacodem a cabeça e olham uns para os outros com ar de entendidos, mas, como o cego que clamou por sua vista e foi repreendido pelos discípulos, " ...ele, porém, cada vez gritava mais".
E se não tiver ainda satisfeito as condições, ou se houver alguma coisa impedindo a resposta à sua oração, poderá prosseguir orando até as horas tardias da noite. Não a hora da noite, mas o estado do seu coração é que decide o tempo da sua visitação. Para este irmão bem pode acontecer que o avivamento venha depois da meia-noite.
Todavia, é muito importante que nós compreendamos que as longas vigílias em oração, ou mesmo o forte clamor e as lágrimas, não são em si mesmos atos meritórios. Toda bênção flui da bondade de Deus como de uma fonte. Ainda aquelas recompensas das boas obras sobre as quais certos mestres falam tão servilmente, sempre em contraste agudo com os benefícios recebidos somente pela graça, no fundo são tão certamente de graça como o próprio perdão do pecado. O mais santo apóstolo não pode ter a pretensão de ser mais que um servo inútil. Os próprios anjos subsistem graças à pura bondade de Deus. Nenhuma criatura pode "ganhar" nada, no sentido comum da palavra (de trabalhar para ganhar ou de receber por merecimento ou de adquirir pagando). Todas as coisas pertencem à bondade soberana de Deus e por ela nos são dadas.
A senhora Juliana resumiu lindamente isso quando escreveu: "Honra mais a Deus, e O agrada muito mais, que oremos fielmente a Ele por Sua bondade e nos apeguemos a Ele por Sua graça, e com verdadeiro entendimento, permanecendo firmes por amor, do que se empregássemos todos os recursos que o coração possa imaginar. Pois se usássemos todos os recursos, seria muito pouco, e não honraria plenamente a Deus. Mas em Sua bondade, a ação é mais que completa, faltando exatamente nada... Pois a bondade de Deus é a oração mais elevada, e desce às partes mais fundas da nossa necessidade".
Apesar de toda a boa vontade de Deus para conosco, Ele não pode atender aos desejos do nosso coração enquanto os nossos desejos não forem reduzidos a um só. Quando tivermos dominado as nossas ambições; quando tivermos esmagado o leão e a víbora da carne, e calcado o dragão do amor próprio sob os nossos pés, e nos considerarmos verdadeiramente mortos para o pecado, então, e só então, Deus poderá elevar-nos à novidade de vida e encher-nos do Seu bendito Espírito Santo.
Ê fácil aprender a doutrina do avivamento pessoal e da vida vitoriosa; é coisa completamente diversa tomar a nossa cruz e afadigar-nos na escalada do sombrio e áspero morro da renúncia. Aqui muitos são chamados, poucos escolhidos. Para cada um que de fato passa para a Terra Prometida, muitos ficam por um tempo, olhando ansiosamente através do rio e depois retornam tristemente à segurança relativa das vastidões arenosas da vida antiga.
Não, não há mérito nas orações feitas a desoras, mas requer disposição mental séria e coração determinado deixar o comum pelo incomum no modo de orar. A maioria dos cristãos nunca o faz. E é mais que possível que as poucas almas que se empenham na busca da experiência incomum cheguem lá depois da meia-noite.
quinta-feira, 15 de julho de 2010
GRAÇA por Ricardo Gondim
Um neopaganismo levedou a fé de tal forma que muitos transformaram a oração em uma simples fórmula para canalizar e receber os favores divinos. Para obter resposta às petições, implora-se, pena-se, insiste-se, no aguardo de que Deus escute. Quando não se recebe, justifica-se assumindo culpas irreais, como falta de disciplina. Acha-se que é necessário continuar implorando para Deus se sensibilizar. Mede-se a espiritualidade pelo número de respostas aos seus pedidos e, quando malsucedidos, castiga-se por não merecer. A própria linguagem denuncia romeiros católicos evangélicos, que lotam os espaços religiosos: é preciso “alcançar uma graça”.
Graça liberta do imperativo de dar certo. O Sermão da Montanha começa felicitando pobres em espírito, chorosos, mansos e perseguidos. Os triunfantes não podem se gloriar de serem mais privilegiados do que os malogrados. Graça revela um Deus teimosamente insistindo em permanecer do lado de quem não conseguiu triunfar; até porque a companhia de Deus não significa automática reversão das adversidades.
Graça permite o autoexame, a análise das motivações mais secretas da alma, sem medo. Na série de afirmações sobre ódio, adultério, divórcio e vingança, Cristo deixou claro que ninguém pode se vangloriar quando desce às profundezas do coração. No nível das intenções, todos são carentes. O olhar sutil indica adultério. O ódio despistado revela homicidas em potencial. A vingança disfarçada contamina as ações superficiais. Lá onde brotam as fontes das decisões, tudo é confuso; vícios e virtudes se confundem. Somente com a certeza de que não haverá rejeição é possível confrontar os intentos do coração para ser íntegro.
Graça convida a amar. Jesus afirmou que Deus “faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos”. Para revelar sua bondade, Deus não precisou ser convencido a querer bem. Deus não faz acepção de pessoas; o seu amor não está condicionado a méritos. Quando as pessoas são inspiradas por gratidão, reconhecimento e admiração por tão grande amor, se sentem impulsionadas a imitá-lo. Deus surpreende por dispensar bondade sem contrapartida de virtude. Assim, na improbabilidade de os seres humanos se mostrarem graciosos, os discípulos devem almejar a única virtude que pode torná-los perfeitos como Deus -- o amor.
Graça é convicção de que o acesso a Deus não depende de competência. Quem acredita que será aceito pelo tom de voz piedoso ou pela insistência em repetir preces nega a paternidade divina. Antes de pedirmos qualquer coisa, Deus já estava voltado para nós. Os exercícios espirituais não precisam ser dominados como uma técnica, mas desenvolvidos como uma intimidade. O secreto do quarto fechado representa um convite à solitude, à tranquilidade que não acontece com sofreguidão.
Graça libera energia espiritual que pode ser dirigida ao próximo. Buscar o reino de Deus e sua justiça só é possível porque não é preciso preocupar-se com o que comer e vestir e por jamais ter de bater na porta do sagrado para conquistar benefícios particulares. Basta atentar para os lírios do campo e pardais para perceber que as ambições devem escapar à mesquinhez de passar a vida administrando o dia-a-dia.
Graça devolve leveza para que os filhos de Deus sintam-se à vontade em sua presença, como meninos na casa dos avós. Graça libera as pessoas para se tornarem amigas de Deus, em vez de vê-lo como um adestrador inclemente. Graça não permite delírios narcisistas. Nenhuma soberba se sustenta diante da percepção de que Deus aposta na humanidade e ainda se convida a cear entre amigos.
Graça distensiona o culto porque avisa: tudo o que precisava acontecer para reconciliar a humanidade com Deus foi concluído: “Consumatum est”. Portanto, enquanto a graça não for redescoberta de fato como a mais preciosa verdade da fé, as pessoas podem até afirmar que foram livres, mas continuarão presas à lógica religiosa das compensações. Devedores, jamais entenderão que o reino de Deus é alegria. A graça liquida com pendências legais. Não restam alegações a serem lançadas em rosto -- “Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus?”.
A religiosidade legalista insiste que é perigoso falar excessivamente sobre a graça. Anteparos seriam então necessários para proteger as pessoas da liberdade que a graça gera. Mas o amor que tudo crê, tudo espera e tudo suporta não aceita outro tipo de relacionamento senão abrindo espaço para que haja amadurecimento. Deus ama assim, e o Sermão da Montanha não deixa dúvidas de que todo discurso sobre o reino de Deus deve começar com graça.
“Soli Deo Gloria”.
• Ricardo Gondim é pastor da Assembleia de Deus Betesda no Brasil e mora em São Paulo. É autor de, entre outros
