"Temos esta Esperança como âncora da alma, firme e segura, a qual adentra o santuário interior, por trás do véu, onde Jesus que nos precedeu, entrou em nosso lugar..." (Hebreus 6.19,20a)
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sexta-feira, 19 de novembro de 2021

MILAGRES NÃO SOLICITADOS por Elben César

A lista de milagres estranhamente não solicitados é enorme. Estamos deixando o tempo passar, as coisas se agravarem e a tristeza aumentar, mas não temos coragem de clamar por certos milagres. Somos incentivados a orar pelo milagre da cura de doenças incômodas ou terminais, pelos milagres da prosperidade e por outros milagres sensacionalistas.

Existe um milagre chamado conversão. É quando o coração de carne toma o lugar do coração de pedra. É quando o pecador descobre que é pecador e chora na presença de Deus. É quando a fé no sacrifício vicário de Jesus desponta e se apodera daquele que quer ser perdoado de seus pecados. É quando alguém se despe do velho estilo e adota outro estilo de vida. É quando a pessoa assume compromisso privado e público com Jesus Cristo. É quando alguém é libertado e arrancado do império das trevas e transportado para o reino de Deus (Cl 1.13). Esse é um milagre e tanto. Porque são poucos os que acertam com a porta estreita (Mt 7.14). Enquanto o milagre da cura, que também glorifica a Deus, traz benefícios exclusivamente para a vida terrena, o milagre da conversão diz respeito a esta vida e à vida que há de vir.

Outro milagre não solicitado é o milagre da vitória sobre a natureza pecaminosa. Há cristãos por aí que não conseguem se livrar de sua carga de pecado. Continuam experimentando derrotas, fracassos e vexames. São dominados pelo ciúme, pela inveja, pelo ódio, pela explosão de gênio, pela impudicícia, pela mentira, pela murmuração, pela contenda, pelo mau uso da língua, pela bebedeira, pela soberba, pela injustiça, pela difamação e por outros vícios. Andam na carne e não no Espírito. Pelo tempo decorrido, deveriam ser mestres, mas ainda são crianças em Cristo (Hb 5.11-14). O milagre da vitória sobre o pecado lhes seria muito bom, para eles e para a igreja. Esse milagre é possível. Precisa ser solicitado com muita vontade e com muita insistência.

Há casais que se desentenderam, vivem um verdadeiro inferno no lar. Separados dentro de casa, estão para se separar legalmente. Não se amam mais ou não sabem mais como expressar esse amor. Preocupam-se com a sorte dos filhos, mas não vêem a menor possibilidade de salvar o casamento. Estão arrastando o problema que, a cada dia, mais se agrava. A situação está insuportável e parece irreversível. Só um milagre poderá interromper o processo e trazê-los de volta ao contentamento conjugal. É isso mesmo, existe o milagre da restauração do matrimônio. Se Deus pode curar alguém do câncer de próstata ou um portador do HIV, por que esse mesmo Todo-Poderoso Deus não pode tornar a dar beleza e alegria ao matrimônio?

Precisamos de ousadia para orar pelo milagre da conversão, pelo milagre da vitória sobre o pecado e pelo milagre da reconciliação conjugal, milagres que — para desgraça nossa — geralmente não são solicitados ou são pouco solicitados.

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ELBEN CÉSAR

sábado, 1 de agosto de 2020

Casamento em Resistência e Submissão | Por Maurício Avoletta Júnior

Stat Crux Dum Volvitur Orbis
(A Cruz permanece intacta enquanto o mundo dá voltas)

Há uma coletânea de cartas e sermões de Dietrich Bonhoeffer, o teólogo alemão que morreu em um campo de concentração nazista, chamada Resistência e Submissão. Nela, somos apresentados a escritos de um Bonhoeffer que, mais do que uma figura de resistência ao nazismo, tornou-se um exemplo de resistência à sociedade secularizada. Ele vivenciou o pior do ser humano e sentiu na pele os males do secularismo, mas, ainda assim, se posicionou como parte da resistência.

Da Igreja primitiva à Igreja Confessante da segunda grande guerra, sempre fomos resistência a algum aspecto da cultura vigente. Fomos, por diversas vezes, resistência ao Estado, às culturas pagãs, às perseguições e, mais recentemente, ao secularismo. Contudo, embora nossa resistência seja dinâmica, nossa submissão não é; ela sempre foi e sempre será ao senhorio de Cristo. Resistimos ao tempo e nos submetemos à vontade de Deus.

Hoje em dia, um dos modos de resistência e subversão sistêmica é o casamento. Em uma cultura hedonista e egocêntrica, escolher, deliberadamente, viver em função de uma outra pessoa é a maior ofensa ao sistema e ao Zeitgeist. Desejar, como casal, conformar-se à imagem de Cristo, mais do que um ato de resistência, é incitar uma revolução nas bases de uma sociedade moribunda.

O casamento é a figura sacramental do relacionamento de Jesus Cristo com sua noiva, a Igreja. É nele que somos moldados e transformados segundo a boa, perfeita e agradável vontade de Deus. É nele que somos guiados por Nosso Senhor à santidade. Mais do que um relacionamento baseado em sentimentos, paixões e desejos sexuais, o casamento é um relacionamento baseado na caridade, no amor. Não o amor cor de rosa e hollywoodiano, mas o verdadeiro amor que se doa e busca o bem do outro em primeiro lugar.

Em uma época onde adultos agem como adolescentes e adolescentes agem como crianças, escolher amadurecer e viver os planos de Deus é optar pela subversão. Desejar uma vida ordinária e comum em detrimento de uma extraordinária, cheia de aventuras e de situações propícias para a divulgação em redes sociais, é nadar contra a correnteza de um mundo secularizado e sem esperanças.

A subversão de Bonhoeffer foi submeter-se ao senhorio de Cristo, num mundo onde todos estavam se submetendo às ideologias. A subversão de nossa época é mostrar que existem valores eternos e inegociáveis. É mostrar que nossa existência é submissa à vontade de Deus e não às tendências do momento. De fato, a vida do cristão sempre foi e sempre será, até a volta de Nosso Senhor, marcada de resistências ao espírito de nossas respectivas épocas e submissão ao senhorio de Cristo.

Maurício Avoletta Junior, 25 anos. Congrega na Igreja Batista Fonte de Sicar (SP). Formado em Teologia pela Mackenzie, estudante de filosofia e literatura (por conta própria); apaixonado por livros, cinema e música; escravo de Cristo, um pessimista em potencial e um futuro “seja o que Deus quiser”.

quinta-feira, 25 de julho de 2019

A SALVAÇÃO TODA por Elben César

A SALVAÇÃO TODA


Estamos cometendo uma injustiça muito grande. Não passamos para o rebanho as boas novas da salvação (Lc 2.10-11). E, quando passamos, mencionamos apenas partes da salvação e, não, a salvação toda.

A salvação toda cobre o passado, o presente e o futuro do rebanho. É por esta razão que falamos acertadamente que fomos salvos, somos salvos e seremos salvos. Fomos salvos da culpa do pecado, somos salvos do poder do pecado e seremos salvos da presença do pecado. Em termos teológicos, a salvação no passado chama-se justificação, a salvação no presente, santificação e a salvação no futuro, glorificação.

A salvação toda começa quando o pecador, prestes a se afogar, agarra-se à corda que lhe é lançada pela graça de Deus. Então, ele escapa da morte eterna. Mas ainda terá grandes dificuldades dentro dele mesmo e ao seu redor. Quer fazer o bem e não consegue.

Deus novamente vem em seu auxílio e lhe dá meios de graça e o poder do Espírito Santo para sobreviver. Todavia, o pecador, mesmo agradecido, quer mais alguma coisa da parte de Deus. Ele aspira à santidade total, a troca de seu corpo mortal e corruptível por outro não mortal nem corruptível, a troca de seu meio ambiente por novos céus e nova terra. É aí que vai terminar a salvação toda, quando Deus redimir tudo, até a criação, que agora geme e suporta angústias (Rm 8.18-23).

A salvação sem santidade gera escândalo, a salvação sem glorificação gera decepção. A salvação toda inclui o começo, a continuação e a consumação. Não podemos pregar só o começo, nem só a continuação nem só a consumação.

Os pastores precisam anunciar a salvação abrangente e o rebanho precisa desenvolver sua salvação com temor e tremor (Fp 2.12).

Não fique parado!

Se você é vagaroso para crer no Jesus do Evangelho, não fique desanimado nem desista da caminhada. Alguns custam a entender e demoram a crer. A começar com os próprios discípulos do Senhor (Veja a história de Nicanor, em Da Páscoa ao Pentecostes).

Vá em frente. Insista. Reprima a incredulidade e alimente a capacidade de crer. Descomprometa-se com o pecado conhecido, pois o pecado é um entrave à fé. Confesse a Deus suas limitações, sua cerviz dura, sua indisposição para crer, seu orgulho, sua dor. Suplique a misericórdia divina, seu perdão, sua força, sua manifestação. Abra a Bíblia e leia com regularidade, com atenção, com boa vontade, com humildade: “A fé vem por ouvir a mensagem, e a mensagem é ouvida mediante a Palavra de Cristo” (Rm 10.17, NVI). Faça amizade com pessoas que já crêem para receber alguma influência da parte delas. Freqüente uma igreja acolhedora, honesta, onde Jesus é anunciado, seja ela qual for.

Você precisa de cura. Apatia religiosa é doença. Incredulidade é doença. Apego ao pecado é doença. Preconceito é doença. Comece o tratamento. Tenha coragem de começar e coragem de continuar. Talvez você fique completamente bom muito logo. Mas não fique parado.

Por Elben César

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

AS FERIDAS LEAIS DE UM AMIGO por Ricardo Barbosa


Alguns meses atrás, marquei com um amigo para passarmos um tempo juntos, conversando e orando. Durante nossa conversa, abri meu coração, compartilhei com ele minhas frustrações, cansaço, desânimo e tristeza. Depois de me ouvir com atenção, voltou-se para mim e disse que o meu problema não eram os outros, nem meus planos que não deram certo, mas eu mesmo. Disse quanto eu era orgulhoso e que minhas frustrações refletiam a decepção que eu nutria para comigo mesmo. A conversa foi dura e longa.

Depois da decepção por não ter ouvido o que eu gostaria de ouvir, agradeci a Deus por aquele irmão ter tido a coragem de me alertar para o abismo no qual eu estava entrando. Sua honestidade e amor deram-lhe a coragem moral de não hesitar em me ferir. Pude perceber que minhas frustrações, fruto do meu orgulho, prejudicavam não só a mim, mas todos à minha volta. O sábio de Provérbios diz: “Leais são as feridas feitas pelo que ama, porém os beijos de quem odeia são enganosos” (Pv 27.6). Todos nós precisamos de amigos leais que tenham a coragem de nos ferir, porém, numa cultura politicamente correta e hipersensível a críticas, abandonamos as palavras sinceras e verdadeiras e as trocamos por bajulações vazias e falsos elogios.

Uma das marcas da amizade de Jesus com seus discípulos foram suas “palavras duras” dirigidas a eles. Ele não caminhou com seus discípulos proferindo apenas palavras suaves, doces e afirmativas. Jesus foi capaz de dizer “arreda de mim Satanás…” a Pedro, um dos seus discípulos mais próximos. Recomendou ao jovem rico que doasse todos os seus bens aos pobres. Àqueles que queriam segui-lo, disse que deveriam abandonar pai, mãe, mulher, filhos irmãos e a própria vida. Jesus encorajou seus seguidores com palavras consoladoras, porém nunca abandonou as palavras duras e jamais hesitou em ferir seus discípulos, para o bem deles. Por isso mesmo Jesus os chamou de “amigos”.

Quando pensamos em amizade, pensamos em pessoas por quem naturalmente temos grande empatia, que gostam das mesmas coisas que gostamos e pensam do mesmo jeito que pensamos. Procuramos pessoas que nos confortem em tempos difíceis, encorajem nos momentos de dúvida e nos apoiem em nossos planos e projetos. No entanto, sabemos que amizade é mais do que isso.

Sabemos que poucas pessoas se importam, de verdade, com nossa alma. Poucos têm a coragem de colocar em risco sua imagem pessoal ferindo nosso orgulho pelo bem da verdade e da eternidade. Muitos beijos e abraços são enganosos e têm o potencial de nos fazer acreditar naquilo que não somos; mesmo aqueles que são sinceros podem nos afastar de Deus e da salvação. Amigos que fazem as perguntas difíceis, que se importam com nossa vida, com o risco de nos perdermos em nossos pecados e enganos, que preferem nos ferir a nos ver perdidos e confusos, são os verdadeiros amigos.

Encontramos nos Evangelhos um exemplo real de amizade. Jesus via seus discípulos como pessoas que lhe haviam sido confiadas por Deus. Por isso ele os repreendeu, exortou, foi firme e duro e, ao mesmo tempo, compassivo e misericordioso. Jamais abriu mão de sua lealdade e buscou, em todo tempo, conduzir seus amigos ao conhecimento de Deus e à vida eterna.

Sou grato a Deus pelos amigos que me ferem, pelas perguntas difíceis e reveladoras. Sou grato a Deus por aqueles que preferem mais ser leais a ser simpáticos, que se importam mais comigo do que com sua imagem, que zelam pela minha eternidade e não por um breve e frágil momento de descontração.

• Ricardo Barbosa de Sousa é pastor da Igreja Presbiteriana do Planalto e coordenador do Centro Cristão de Estudos, em Brasília. É autor de, entre outros, A Espiritualidade, o Evangelho e a Igreja e Pensamentos Transformados, Emoções Redimidas. http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/363/as-feridas-leais-de-um-amigo

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

O QUE VEM DEPOIS DA GRAÇA? por Ricardo Barbosa

Cresci ouvindo amigos de formação dispensacionalista afirmando que o tempo da lei passou e que agora vivemos o tempo da graça. Eles diziam que o Antigo Testamento, com suas leis e mandamentos, dera lugar ao Novo Testamento, em quetudo se resume no amor de Deus, um amor sem exigências, que nos aceita como somos; que o Deus justo e temível da antiga dispensação dera lugar ao Jesus manso e misericordioso da nova dispensação. Um tipo de evolucionismo divino.

O dispensacionalismo foi muito criticado e combatido. No entanto, o que vemos hoje é o seu reconhecimento, não apenas pelos que creem nas diferentes dispensações na história da salvação, mas, sobretudo, pelos cristãos pós-modernos, que rejeitam mandamentos, leis ou qualquer chamado à obediência. O que importa é o amor. É preciso sentir-se amado para então amar. É preciso sentir-se aceito para então obedecer. O problema é que nunca se sentem suficientemente amados ou aceitos.

No livro “Uma Força Medonha”, C. S. Lewis descreve um diálogo entre Ranson e Jane sobre casamento. Ela achava difícil confiar no marido porque sentia que já não o amava mais. Ranson então lhe diz: “A senhora não deixou de obedecer por falta de amor, mas perdeu o amor porque nunca tentou obedecer”. A relação entre o amor e a obediência é intensa e vital. Jesus também afirmou: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama” (Jo 14.21).

A ruptura que muitos cristãos fazem entre o Antigo e o Novo Testamento, entre lei e graça, entre mandamento e amor, compromete tragicamente a formação do caráter cristão. O processo que envolve o crescimento e o amadurecimento cristão requer obediência consciente e diligente. Uma passagem bíblica que expressa bem isto está em 2 Pedro 1.4-7: “[...] ele nos deu as suas grandes e preciosas promessas, para que por elas vocês se tornassem participantes da natureza divina e fugissem da corrupção que há no mundo [...]. Por isso mesmo, empenhem-se para acrescentar à sua fé a virtude, à virtude o conhecimento; ao conhecimento o domínio próprio [...]”.

As promessas foram cumpridas em Cristo. O propósito de Deus para o ser humano foi revelado. O caminho do crescimento espiritual foi escancarado com a vida, morte e ressurreição de Cristo. Maturidade cristã é tornar-se participante da natureza divina, revelada em Cristo. É por causa disso que devemos abandonar a corrupção que existe no mundo e nos entregar, deliberadamente, às virtudes, ao domínio próprio, à perseverança e a tudo o que nos leva a ser semelhantes a Cristo.

É possível fazer isto sozinho? Não. Jesus afirmou: “[...] sem mim nada podeis fazer” (Jo 15.5). Somente a graça de Deus pode realizar isto em nós. Porém, se eu nada fizer, nada será feito. É aqui que a obediência e o amor se encontram na experiência da fé. Os mandamentos de Deus não são uma negação de sua graça e amor, são sua afirmação. É a obediência aos mandamentos que nos leva a experimentar o amor divino.

Pedro afirma que precisamos nos empenhar para acrescentar à nossa fé a virtude, o domínio próprio, a perseverança, a piedade, a fraternidade e o amor. Sou eu que tenho de me empenhar. A responsabilidade é minha. Ninguém fará isto por mim. Consigo fazer isto por conta própria? Não. Preciso da graça de Deus. Contudo, se eu não me esforçar para fazer, nada será feito.

A formação do caráter cristão requer uma experiência intensa e poderosa com a graça de Deus. Deus, em Cristo, nos revelou seu amor, cumprindo por meio dele todas as promessas. Fomos salvos, regenerados e transportados do império das trevas para o seu reino de amor, justiça e paz. O caminho foi trilhado por ele, ele é o primogênito da nova criação. Sua vida consistiu em fazer a vontade do Pai e realizar a sua obra.

A formação do caráter cristão requer a mesma obediência aos mandamentos de Deus. Um cristão passivo e apático jamais experimentará o real significado da graça divina e, mais cedo do que imagina, perceberá a fragilidade de seu amor por Deus. Não deixamos de obedecer a Deus por falta de amor, deixamos de amá-lo por não obedecer-lhe.

• Ricardo Barbosa de Sousa é pastor da Igreja Presbiteriana do Planalto e coordenador do Centro Cristão de Estudos, em Brasília. É autor de “Janelas para a Vida” e “O Caminho do Coração”.

domingo, 17 de novembro de 2013

VIDA LONGA, VIDA ALONGADA E VIDA ETERNA - Revista Ultimato nov/dez

Em vez de pedir a Deus vida longa, riqueza ou a morte de seus inimigos, o recém-empossado rei de Israel pediu sabedoria para governar o povo com Justiça. Na escala de valores do jovem Salomão, pelo menos para aquele momento, capacidade para servir a Deus e aos homens era mais importante do que vida longa (I Rs 3.4-15).

Afinal o que é vida longa? Vida longa é aquela que, a cada dia, consegue empurrar a morte para frente. Mas, no fundo, o que se quer mesmo é a morte da morte, "aquele monstro cujo lábio inferior toca a terra e o superior toca o céu, de modo a engolir tudo". A morte é uma intrusa, não foi programada, é a sósia do pecado e, segundo Paulo, é o último - e o pior - inimigo do ser humano e da criação de Deus a ser derrotado (I Co 15.26).

Na realidade, enquanto não chegarmos à plenitude da salvação, é mais correto falar em vida alongada do que em vida longa. Há uma pequena diferença entre uma e outra.

A vida alongada tem um preço muito alto. Depende de uma infinidade de médicos e enfermeiras, de produtos farmacêuticos - quase todos de uso contínuo - de aparelhos cada vez mais sofisticados, de exames de laboratório, de planos de saúde, de cirurgias e de permanências na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI).

Hoje em dia, o alongamento da vida está sendo questionado tanto pela ciência como pela sociedade, incluindo o próprio paciente e sua família. A Organização Mundial da Saúde (OMS) diz que 90% das mortes - quase 60 milhões por ano - "resultam de doenças agudas incapacitantes e enfermidades crônico-degenerativas que podem evoluir com lento e longo processo de morte, dependendo da doença e das comorbidades envolvidas". O cardeal Raymundo Damasceno Assis, arcebispo de Aparecida - SP, e presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), diz que "a morte não é uma doença para a qual devemos achar cura" e "é necessário que o homem reconheça a aceite a própria realidade e os próprios limites".

Precisamos tirar o foco da esperança da vida longa e da vida alongada e colocá-la na vida eterna, à qual Jesus se referiu diversas vezes. Vida eterna não é vida terrestre, nem vida física, nem vida comum. Vida eterna é mais do que vida depois da morte e da ressurreição. Ela pode começar aqui e continuar, sem interrupção, para todo o sempre. O Evangelho de João garante que quem crê no Filho de Deus como Salvador "tem a vida eterna". O verbo "ter" está no presente e não no futuro (Jo 3.36). O ex-professor do seminário teológico de Dallas J. Walvoord explica que vida eterna "é mais o resultado do que a causa da Salvação, mas relaciona-se com a conversão ou a manifestação da vida nova em Cristo". É aquela vida "que antegoza e garante a comunhão com Deus na eternidade".

Jesus explicou a Nicodemos que Ele seria pregado numa cruz para que todos os que cressem nEle tivessem a vida eterna (Jo 3.15). A continuação desta palavras é o versículo mais traduzido e recitado de toda a Bíblia: "Deus amou o mundo tanto, que deu o Seu único Filho, para que todo aquele que nEle crer não morra, mas tenha a vida eterna" (Jo 3.16).

Jesus não veio remendar coisa alguma - Ele veio para construir coisas novas e maiores. A vida eterna para quem deseja ter vida longa ou alongada - e não consegue - é uma delas.

A morte daquele monstro cujo lábio inferior encosta no mais baixo abismo e o superior encosta no mais alto céu, de modo a devorar bebês, recém-nascidos, crianças, adolescentes, adultos e idosos de ambos os gêneros, faz parte da escatologia cristã. O sumiço da morte está em processo!

terça-feira, 1 de outubro de 2013

NEM DENTRO NEM FORA por Ricardo Barbosa

Blaise Pascal (1623–1662), o grande físico, matemático e teólogo francês, em seus “Pensamentos”, falando sobre a grandeza do homem, afirma o seguinte: “Os estoicos dizem: Tornai a entrar dentro de vós mesmos; é aí que encontrareis o vosso repouso: e isso não é verdadeiro. Outros dizem: Saí e buscai a felicidade divertindo-vos: e isso não é verdadeiro. […] a felicidade não está nem em nós, nem fora de nós; está em Deus, tanto fora como dentro de nós”.

Tenho a impressão de que as tentações mais sutis nos são apresentadas aos pares: ou isto ou aquilo, ou dentro ou fora. Todas as vezes em que optamos por uma, somos levados a negar, ou a minimizar, a outra. Exemplo: Amamos a Deus para então obedecer-lhe ou obedecemos-lhe para então amá-lo? Servimos ao próximo porque esse é o nosso chamado ou precisamos primeiro sentir o chamado para então servir? O que é mais importante: A razão ou a emoção? A convicção ou o sentimento? 

A escolha entre um e outro, ou mesmo a tentativa de valorizar um em detrimento do outro, tem tornado a fé de muitos cristãos morta, levado inúmeros casamentos ao fim, comprometido a ética e a moral e contribuído com uma espiritualidade frágil e confusa. 

Quando Pascal afirma que “a felicidade não está nem em nós, nem fora de nós; está em Deus, tanto fora como dentro de nós”, ele não propõe um equilíbrio entre uma coisa e outra, mas uma compreensão completamente diferente. Ao afirmar que a felicidade está em Deus, ele muda não só o foco da discussão -- dentro ou fora --, mas também o eixo da discussão, afasta o “nós” e coloca “Deus”. 

Quando o apóstolo Paulo afirma que Deus fez convergir todas as coisas em Cristo (Ef 1.10), ele reconhece que em Cristo encontramos a síntese, a unidade, de todas as coisas. A felicidade não está nem dentro, nem fora de nós, mas nele. A verdade não é isso ou aquilo, mas ele. Em Cristo, o amor e a obediência são uma coisa só, a fé e as obras nunca estão dissociadas. As convicções e os sentimentos estão alinhados e a mente e as emoções não são realidades distintas e, muitas vezes, paradoxais. 

A fé que temos em Cristo nos revela um novo jeito de ser e de perceber as coisas. Em Cristo, Paulo considerava-se livre, mesmo estando acorrentado numa masmorra qualquer do Império Romano. A liberdade não era definida por viver desta ou daquela forma. Ele era tão livre a ponto de escolher ser escravo por amor à Igreja. A fé em Cristo nos confere uma nova identidade que não depende mais de nós, mas dele. Como disse Paulo, “já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim”. Quanto mais estou nele, mais me reconheço pleno e real. 

A vida do Filho estava no Pai. O Pai era a fonte integradora de todas as coisas. A violência do mundo não fazia sentido, mas a confiança e a entrega do Filho ao Pai fizeram com que seu amor pelo ser humano não fosse abalado pela violência que sofreu. Sua segurança ou alegria não eram internas ou externas, mas o próprio Pai. É somente por causa dessa compreensão que Jesus pode dizer, no momento mais crítico de sua existência: “Eu venci o mundo”. Aos olhos de todos, era um derrotado, mas não era assim que ele se via. Quanto mais eu me encontro em Cristo, mais livre e verdadeiro me torno. 

Quanto mais eu vivo nele e por ele, mais seguro me encontro. Minha alegria, confiança, felicidade, dignidade e meu reconhecimento não estão numa coisa ou noutra, nem dentro, nem fora, mas nele, que tudo me proporciona para minha plena realização. 

• Ricardo Barbosa de Sousa é pastor da Igreja Presbiteriana do Planalto e coordenador do Centro Cristão de Estudos, em Brasília. É autor de, entre outros, “A Espiritualidade, O Evangelho e a Igreja”.
http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/344/nem-dentro-nem-fora

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

O EVANGELHO COMO SUPERAÇÃO DA RELIGIÃO | Ultimato Jan/Fev 2013

O evangelho é a superação da religião. O cristianismo é uma religião. O evangelho é, portanto, a superação do cristianismo. O silogismo proposto carece de esclarecimentos. Não pode ser compreendido sem uma adequada noção dos conceitos de evangelho e religião.

O sociólogo venezuelano Otto Maduro, em seu livro “Religião” e “Luta de Classes”, define religião como “conjunto de discursos e práticas, referente a seres anteriores ou superiores ao ambiente natural e social, em relação aos quais os fiéis desenvolvem uma relação de dependência e obrigação”.

A definição de Otto Maduro permite identificar dois importantes aspectos do fenômeno religioso: seus fundamentos e sua lógica. Quanto aos fundamentos, a expressão “conjunto de discursos e práticas” aponta para as bases da religião: discursos, ou dogmas – corpo doutrinário; rito, ou práticas litúrgicas; e tabu, ou códigos morais. Considerados esses fundamentos, o evangelho não pode ser classificado como religião.

Embora tenha suas doutrinas e afirmações dogmáticas, a essência do evangelho é o relacionamento com uma pessoa – Jesus Cristo –, e não com um “conjunto de crenças” racional e cartesianamente organizado: “Esta é a vida eterna: que te conheçam, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (Jo 17.3). Em relação aos ritos e práticas litúrgicas, sabemos que o evangelho extrapola absolutamente o cerimonialismo religioso e torna obsoleto o debate a respeito de onde e como adorar a Deus, pois “Deus é espírito, e é necessário que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade” (Jo 4.24). A adoração legítima e autêntica é a consagração da vida como “sacrifício vivo, santo e agradável a Deus” (Rm 12.1), em detrimento do que se faz nos templos, até porque “Deus não habita em templos feitos por mãos humanas” (At 7.48), tendo como morada (Ef 2.20-22) uma casa espiritual construída com pedras vivas (1Pe 2.5).

Finalmente, o evangelho, cujo novo mandamento é amar com o amor do Cristo (Jo 13.34), jamais poderá se classificar como tabu, ou régua reguladora de comportamento moral, pois “no amor não há Lei” (Gl 5.22-23), o que estabelece a proposta cristã como uma nova consciência, baseada na mente (1Co 2.16) e na atitude do Cristo (Fp 2.5-11), que extrapolam qualquer enquadramento moral ou legal.

Considerando as categorias das ciências da religião que encaixam o fenômeno religioso na moldura dos dogmas, ritos e tabus, é surpreendente que o evangelho seja considerado religião. O evangelho é a superação da religião. Não é adesão a dogmas, mas relação mística com o Deus revelado em Jesus de Nazaré; não é celebrado em ritos, mas na dinâmica do Espírito que faz da vida toda uma festa para a glória de Deus; não se restringe à observação de regras comportamentais, mas se estabelece a partir de uma profunda transformação do ser humano, que é arrancado de si mesmo na direção de seu próximo em amor.

A definição de Otto Maduro permite também perceber a lógica inerente ao fenômeno religioso: a “relação de obrigações e benefícios” com os “seres superiores”. A religião se sustenta na lógica da justiça retributiva: o fiel cumpre suas obrigações e recebe a bênção; falha no cumprimento do que lhe compete no contrato com a divindade e em troca recebe o castigo e a maldição. A impossibilidade humana de atingir quaisquer que sejam os padrões definidos pelos deuses, ou mesmo Deus, faz surgir necessariamente o sistema sacrificial. Por definição, o divino está na categoria da perfeição, enquanto o humano, da finitude e da imperfectibilidade moral. Para escapar dos castigos e maldições, a religião oferece os sacrifícios compensatórios, necessários para afastar a ira dos deuses e conquistar seus favores.

O evangelho é a superação das relações de mérito (justiça retributiva) e dos sistemas sacrificiais. Jesus é “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29), e inaugura uma nova dimensão de relação entre Deus e os homens, não mais baseada no mérito, mas na graça, a elegante opção autodeterminada de Deus de abençoar “bons e maus, justos e injustos”, pois “Deus é amor” (1Jo 4.8). Aquele que se apropria do evangelho sabe que “Aquele que não poupou a seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós”, também “nos dará juntamente com ele, pela graça, todas as coisas” (Rm 8.32), e desfruta a liberdade e a paz com Deus e a paz de Deus (Rm 5.1; 8.1), pois “o amor lança fora todo o medo” (1Jo 4.18).

À sombra da cruz do Calvário, onde o escandaloso amor de Deus é revelado (Jo 3.16; 1Co 1.23), é surpreendente que o evangelho seja encaixotado nas categorias da religião, que tem como fundamento as “relações de obrigações e benefícios”, e sobrevive de enclausurar corações e consciências nos limites estreitos do medo e da culpa.

É urgente a melhor compreensão dos termos que estabelecem a distinção entre o evangelho de Jesus Cristo e o cristianismo compreendido nos termos das ciências da religião. O cristianismo, como sistema religioso organizado e institucionalizado, é culpado do pecado de quebra do terceiro mandamento. O cristianismo, em qualquer período da história e contexto sociocultural, se assemelha muito mais a todos os demais fenômenos religiosos que ao evangelho que pretendeu superar. É uma pena que os cristãos estejam, ainda hoje, exageradamente apegados às discussões e aos debates dogmáticos, aprisionados a cerimoniais ritualísticos templocêntricos e clericais, quixotesca e desnecessariamente ocupados na tentativa de subjugar e controlar moralmente o comportamento social, e tristemente, escravizados pelos sistemas sacrificiais e meritórios, que não fazem mais do que multiplicar as fileiras dos “decepcionados com Deus”.

Chegou o tempo quando homens e mulheres que serão tomados por loucos devem, em plena manhã, acender uma lanterna, correr aos templos cristãos e gritar incessantemente: “Onde estão aqueles que não se envergonham do evangelho?”.

• Ed René Kivitz é pastor da Igreja Batista de Água Branca, em São Paulo.
www.edrenekivitz.com

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

CRISTO e o anticristo: semelhanças sutis, diferenças vitais | Ricardo Barbosa

Sabemos que a mentira não existe. O que existe é a corrupção da verdade. Uma grande mentira nasce de uma pequena mudança na verdade. Nossos primeiros pais foram enganados quando a serpente manipulou a verdade lançando a semente do engano. E assim tem sido na longa história da humanidade. O que Cristo oferece ao ser humano, o anticristo também oferece, com pequenas variações. As ofertas vêm sempre aos pares. As semelhanças são grandes, porém, as diferenças são fatais, tanto para o corpo como para o espírito.


Nem sempre é fácil distinguir uma coisa da outra. Principalmente em uma época de conceitos subjetivos e moral relativa. Geralmente, quando os valores tornam-se vagos e o narcisismo rompe com qualquer princípio absoluto, nosso julgamento é reduzido aos interesses privados de um ego carente. Neste cenário, as ofertas do anticristo tornam-se mais atraentes. 


Cristo e o anticristo desejam que tenhamos uma vida sem culpa. É claro que todos nós queremos viver sem culpa. O anticristo propõe eliminá-la. Você não é culpado de nada, quando muito, apenas cometeu uma pequena e justificada falta. O melhor a fazer é negá-la ou, quem sabe, minimizá-la. É isto que se vê nos livros de autoajuda, nas palestras motivacionais e nas inúmeras formas de terapia. Cristo também deseja que vivamos sem culpa, porém ele não a nega, mas a redime. A culpa existe, é real e traz consequências dramáticas para a vida. Ninguém resolve o problema da culpa simplesmente negando-a. Cristo resolve assumindo-a e oferece ao ser humano perdão, reconciliação e restauração por meio do arrependimento e da confissão.

Cristo e o anticristo desejam que sejamos felizes. A felicidade é um anseio básico do ser humano. O anticristo apresenta a felicidade como um direito, ou melhor, uma obrigação. Não importa o que é necessário fazer para obtê-la. Mereço ser feliz, devo ser feliz e serei feliz mesmo que isto gere infelicidade para os outros. É isto que seus porta-vozes estão afirmando por todos os cantos. Cristo também deseja que sejamos felizes. Não porque temos o direito nem porque merecemos. A felicidade que Cristo oferece é resultado de uma vida de confiança e entrega. Não é a que encontramos no final de uma conquista, mas a que nos acompanha à medida que andamos em humildade e mansidão. É no ato de nos doar em amor a Deus e ao próximo que experimentamos a vida feliz, e não na busca egoísta da satisfação de nossos desejos mesquinhos e infantis.

A liberdade é também um desejo comum de Cristo e do anticristo. A liberdade que o anticristo oferece é para fazer o que quiser, como quiser e quando quiser, como se isto fosse possível. Uma liberdade que, no final, nos transforma em reféns de nós mesmos, mergulhados em um mundo de ilusões e frustrações. Cristo também quer que sejamos livres. Paulo afirma que “foi para a liberdade que Cristo nos libertou”. E conclui dizendo: “Porém não useis da liberdade para dar ocasião à carne; sede, antes, servos uns dos outros, pelo amor” (Gl 5.13). É somente no ato de amar que o ser humano encontra e expressa sua liberdade. 

As semelhanças são sutis. Os profetas do anticristo estão por toda parte oferecendo o que Cristo oferece. A diferença entre um e outro está na cruz. Tudo aquilo que nega a cruz, nos conduz à morte. Tudo o que vem da cruz, nos conduz à vida. C. S Lewis, no final do livro “Cristianismo Puro e Simples”, afirma: “Submeta-se inteiramente a Cristo e você encontrará a vida eterna. Não retenha nada. Nada em você que não tenha sido entregue será realmente seu. Nada em você que não tenha morrido ressuscitará da morte. Se você procurar a si próprio, encontrará, no decorrer do tempo, somente ódio, solidão, desespero, rancor, ruína e decadência. Porém, se você procurar a Cristo, você o encontrará, e com ele tudo o mais que você tiver renunciado”.


• Ricardo Barbosa de Sousa é pastor da Igreja Presbiteriana do Planalto e coordenador do Centro Cristão de Estudos, em Brasília. É autor de “Janelas para a Vida” e “O Caminho do Coração.”
http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/337/cristo-e-o-anticristo-semelhancas-sutis-diferencas-vitais

quarta-feira, 6 de junho de 2012

ENTREGA | Rubem Amorese


Deixe pra lá! Releve! Perdoe!

Tenho percebido que essas são palavras difíceis para algumas pessoas, e fáceis para outras. E o que está por trás dessas atitudes me intriga. 

Parece que algumas pessoas têm uma grande capacidade de “deixar pra lá”, de relevar uma ofensa, de esquecer um agravo. É como se não se apegassem às coisas. Na hora da perda, não sofrem muito. Porém, não lutam tanto pelo que acham importante. Sem luta, não há vitória. 

Outras parecem incapazes de abrir mão. Então, tudo o que a vida lhes tira, produz a dor de um assalto, de uma violência.

Entre estas últimas, as que mais me chamam atenção são aquelas que não “abrem mão” de suas razões. Seja em uma simples conversa, que acaba em discussão, seja em uma questão de direito, apegam-se às suas razões até às lágrimas. E se, após muitas lutas, essas coisas lhes são “tomadas”, entram em desespero de morte. 

As pessoas do primeiro grupo sofrem menos, por não se apegarem demasiadamente. Não lutam tanto, não retêm tanto. Não perdem muito, mesmo quando são abusadas.

Entretanto, conheço gente que é capaz de se lembrar de todas as violências sofridas ao longo da vida. Coisas que lhes foram tiradas, batalhas perdidas, conversas encerradas, desconsiderações, injustiças, votos vencidos, estão todos lá, no depósito de passivos, de haveres, aguardando ressarcimento.

Sim, a vida (que acaba assumindo nomes de pessoas) lhes deve. Se algo nunca foi entregue, então lhes foi tomado. Se nunca foi perdoado, ainda é “dívida ativa”. Se nunca foi esquecido, está registrado para oportuna cobrança.

Talvez uma pessoa assim considere aquele que “deixa pra lá” um leviano. E talvez o que releva e esquece considere aquele que não “abre mão” um infeliz briguento. 

Lembro-me de ter “deixado pra lá” direitos de consumidor, só para não arranjar briga. Porém, lembro-me de ter “pendurado” ofensas, aguardando o pedido de desculpas. Recordo-me de ter dado razão a quem não a tinha, para preservar a amizade, e de ter “aberto mão” da amizade por não achar justo “deixar barato”.

Certa vez, deparei-me com uma frase usada em um curso para noivos: “O que você prefere: ter razão ou ser feliz?” -- como que a dizer que, se eu quisesse ter sempre razão, seria infeliz! Será que essa pergunta não nos ajudaria a definir melhor a qual grupo pertencemos?

Eu confesso: naquele exato momento me descobri preferindo ter razão. E argumentei para mim mesmo que a felicidade, à custa do que é certo, não vale a pena. Senti-me como a formiga invejosa, criticando a alegria “irresponsável” da cigarra.

Nesse momento, ouvi a palavra de Paulo aos coríntios conflagrados: “[...] por que não sofreis, antes, a injustiça? Por que não sofreis, antes, o dano?” (1Co 6.7).

Ocorre-me então que talvez a atitude correta não seja o “deixar pra lá”, mas a entrega. Em vez de esquecer, entrego meus direitos, bens e razões ao reto Juiz. Assim, as coisas não ficarão sem consequência, sem julgamento, sem resposta. Contudo, estarei “deixando pra lá”, em um ato de fé, para ser feliz.

Imagino que, por esse caminho, Deus me acrescentará o orar pelos meus inimigos e me alegrará ao vê-los abençoados.


• Rubem Amorese é presbítero na Igreja Presbiteriana do Planalto, em Brasília, e foi professor na Faculdade Teológica Batista de Brasília por vinte anos. Antes de se aposentar, foi consultor legislativo no Senado Federal e diretor de informática no Centro de Informática e Processamento de Dados do Senado Federal. É autor de, entre outros, Louvor, Adoração e Liturgia e Fábrica de Missionários -- nem leigos, nem santos. ruben@amorese.com.br

segunda-feira, 28 de maio de 2012

MARAVILHOSA GRAÇA | Ultimato

“Pois pela graça de Deus vocês são salvos por meio da fé. Isso não vem de vocês, mas é um presente dado por Deus.” (Ef 2.8)

Você já parou para pensar o que é graça? Graça é a mais clara demonstração de carinho que você e eu já recebemos; é o transbordar generoso do amor de Deus por meio de Jesus Cristo! 

Vejo isto muito claramente na vida de três homens. O primeiro deles é o inglês William Cowper, nascido em 1731. Aos 6 anos ele perdeu sua mãe; aos 10 anos seu pai o enviou para um internato onde viveu uma vida horrível e cheia de desapontamentos. Aos 32 anos desistiu do sonho de ser um magistrado em consequência de uma profunda depressão, que o levou a tentar o suicídio muitas vezes. Tentou pular no rio Tâmisa, mas foi impedido; ingeriu veneno, porém foi encontrado a tempo por alguém que o socorreu; atirou-se sobre uma faca, mas a lâmina quebrou com o peso do seu corpo; tentou enforcar-se, contudo um vizinho o encontrou e cortou a corda antes que ele morresse; tomou muitos comprimidos antidepressivos, mas foi salvo por sua empregada. Sofrendo de depressão aguda e profunda inquietação mental, beirando a loucura, voltou-se cada vez mais para Cristo.

Um ano após suas tentativas de suicídio, lendo a Bíblia no jardim de sua casa, uma passagem o marcou: “Todos pecaram e estão afastados da presença gloriosa de Deus. Mas, pela sua graça e sem exigir nada, Deus aceita todos por meio de Cristo Jesus, que os salva. Deus ofereceu Cristo como sacrifício para que pela sua morte na cruz, Cristo se tornasse o meio das pessoas receberem o perdão dos seus pecados, pela fé nele” (Rm 3.24-25). O Espírito Santo atuou em seu coração através daquelas palavras e ali mesmo rendeu-se a Cristo, sendo salvo dos seus pecados. O próprio Cowper afirma: "Não sei como, mas num momento, recebi poder para crer e o sol da justiça brilhou em meu coração. Vi claramente a suficiência do sacrifício feito por Cristo; o perdão através do seu sangue; a completa e ampla justificação".

Aos 34 anos, restaurado da depressão, Cowper compôs 64 hinos cristãos e muitas poesias, sendo considerado um dos maiores poetas inglês. Além da música e da poesia, ele lutou pela causa dos pobres e dos escravos!

O segundo homem a receber a graça de Deus foi o inglês John Newton, nascido em 1725. Coincidentemente ele também perdeu sua mãe muito cedo, mas sempre se lembrava das orações que ela fazia por ele, ajoelhada ao lado da cama. 

Quando jovem, Newton tentou desertar da marinha inglesa, porém, como punição, foi açoitado. 

Aos 25 anos iniciou seu trabalho como comandante de navio negreiro. Ele transportava escravos africanos para América. Os escravos eram marcados com ferro quente e transportados no porão do navio com os pés, mãos e pescoço acorrentados, sentados lado a lado ao longo da viagem. Quando algum escravo apresentasse diarreia, algo muito comum naquela situação, eram feitos supositórios de cordas para controlar o fluxo; se morressem, eram arremessados ao mar. Estas coisas eram feitas sob a supervisão do comandante do navio, que por vezes também açoitava os escravos. E esta era a função de John Newton.

Em uma dessas viagens, o navio enfrentou uma grande tempestade e estava prestes a afundar. Temendo a morte, e ouvindo o gemido dos negros acorrentados no porão, Newton ofereceu sua vida à Cristo: “Senhor, tem misericórdia de nós”. O Senhor veio em seu auxílio e acalmou as águas. Quando voltou para a cabine, Newton refletiu e entendeu que Deus falava com ele através da tempestade, e que a sua graça havia se manifestado.

Newton converteu-se, abandonou os navios negreiros e começou a estudar para ser pastor, função que exerceu nos últimos 43 anos de sua vida trabalhando em uma capela em Londres. Lá se tornou amigo do poeta William Cowper e juntos eles trabalharam nos cultos semanais e nas reuniões de oração. Também compuseram hinos, entre eles “Amazing Grace”, que Newton dedica ao dia da sua salvação na tempestade, dentro do navio negreiro:

“Maravilhosa graça! Como é doce o som
que salvou um pecador como eu!
Estava perdido uma vez, mas agora fui encontrado;
era cego, mas agora posso ver.
Essa graça ensinou meu coração a temer,
é a graça que alivia meus medos;
como é preciosa a graça que apareceu
no momento em que eu acreditei nela.
Terminados muitos perigos, labutas, e armadilhas,
eu estou voltando;
essa graça trouxe-me seguro até aqui,
e a graça conduzir-me-á para casa.
O senhor prometeu-me bondade,
sua palavra me dá esperança;
meu escudo e porção será,
enquanto minha vida existir.
Sim, quando esta carne e coração falharem,
e a vida mortal cessar,
eu possuirei, atravessando o véu,
uma vida da alegria e da paz.
Quando nós estivermos lá por dez mil anos,
brilhando como o sol,
não teremos menos dias para louvar a Deus
do que quando nós começamos.”

Mas o plano de Deus não se limitou apenas em juntar Willian Cowper e John Newton. Em um culto onde os amigos cantavam, um jovem chamado William Wilbeforce, recém convertido ao cristianismo, procurou o pastor Newton para ser seu conselheiro. A amizade entre eles fez brotar um anseio ardente pelo fim da escravatura, e, inspirado pelo pastor, Wilbeforce começou a levantar mais cedo para orar e ler a Bíblia. Em uma de suas devocionais, ele entendeu que sua missão era lutar pelo fim da escravatura. Então disse: “A perversidade da escravatura é tão grande, medonha e irremediável que estou completamente preparado para lutar pela abolição, seja qual forem as consequências. Nunca descansarei até conseguir a abolição da escravatura”. Apesar da fragilidade de sua saúde, ele lutou diariamente contra a escravidão.

Estes três homens ilustram a graça de Deus. Suas histórias foram entrelaçadas, como um bordado; antes da graça, víamos o bordado pelo lado avesso, sem entender como um emaranhado de fios poderia resultar em alguma coisa. Mas Deus sabe o que está bordando.

Cowper morreu em 1800, com 69 anos de idade. William Wilbeforce, em 1833, e alcançou o seu objetivo: o fim da escravatura. O hino composto por seu pastor, “Amazing Grace”, foi o hino de sua luta. Newton, antes de morrer em 1807, com 82 anos, disse: "Minha memória quase se foi, mas recordo duas coisas: eu sou um grande pecador e Cristo é meu grande salvador!". Ele foi enterrado no jardim da igreja que pastoreava e em sua lápide está escrito a frase que ele mesmo havia escolhido: “John Newton, pastor, uma vez um infiel e libertino, foi pela rica misericórdia do nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo, preservado, restaurado, perdoado e chamado para pregar a fé que eu mesmo antes tentei destruir”. 

Isto é a graça de Deus, e ela foi concedida a cada um de nós segundo a proporção do dom de Cristo (Ef 4.7). Se hoje você se sente escravizado, lembre-se: Cristo pode quebrar suas algemas! Fique na graça do Senhor Jesus Cristo, no amor de Deus, e na comunhão do Espírito Santo.


• Márcia Heuko, bacharelando em teologia pela Faculdade Fidelis, é coordenadora do Ministério de Ensino Didaskalia da Igreja Irmãos Menonitas Refúgio das Águias, em Curitiba, da qual é membro. mrheuko@hotmail.com

quinta-feira, 22 de março de 2012

11/09 & TIMES SQUARE CHURCH

No primeiro domingo depois do atentado terrorista nos Estados Unidos, as igrejas se encheram no país. Obviamente, o sermão daquele domingo foi a propósito do que havia acontecido cinco dias antes. O pastor da Igreja da Times Square, em Nova York, ordenado há 48 anos, abordou o tema As torres caíram — mas não compreendemos o significado da mensagem!

Lá pelas tantas, o pregador foi dizendo: 

“Nunca na história o Senhor deixou seu povo sem pistas na hora da calamidade. Ele jamais nos forçou a descobrir as crises por nós mesmos. Ele sempre fornece uma palavra esclarecedora.

Quando o Congresso pede um minuto de silêncio, acreditamos ser por arrependimento verdadeiro. Quando vemos os políticos cantando Deus Salve a América, achamos que nosso país retornou a Deus. Quando desportistas interrompem o jogo para fazer um minuto de silêncio, pensamos que é um exercício espiritual. Mas é só isso que vai sobrar da nossa recente tragédia?

Sou tão patriota quanto qualquer americano. Mas enfrentamos o mesmo perigo que correu em Israel: podemos facilmente deixar escapar a mensagem de Deus para nossa nação. Em todo o país as pessoas estão fazendo reuniões de oração e memória. É correto, honroso e bíblico lembrarmos dos que morreram. Mas por que temos tanto medo de convocar também reuniões de oração e arrependimento?

Neste momento, a maioria dos americanos estão concentrados na lembrança e na vingança. Assim, como fica o chamado de Deus para os EUA voltarem para Ele? 

Se Deus não poupou outras nações que desobedeceram sua leis, por que haveria de poupar os EUA? Ele nos julgará do mesmo jeito que julgou Sodoma, Grécia, Roma e outras culturas que lhe viraram as costas.”

O pastor da Times Square conhece Nova York na ponta do dedo, especialmente os antros de perdição, pois mora lá há muitos anos. O que o levou a Nova York foi o desejo incontido de trabalhar com jovens dependentes de droga. Foi ele quem escreveu o best-seller A Cruz e o Punhal, fundou o primeiro Desafio Jovem (entidade que procura recuperar marginais) e teve alguma influência na formação do Movimento Carismático Católico. O nome dele é David Wilkerson!

O sermão do pastor da times square cinco dias depois do atentado terrorista - Revista Ultimato - Edição 273
...
“You shall know the truth and the truth shall make you free” 
John 8:32.

Eu tive um grande privilégio de, ainda adolescente, conhecer o Livro do Pr. David Wilkerson - A Cruz e o Punhal. Desde então fiquei fã da obra que este homem de Deus começou ali em Nova Iorque com gangues, criminosos e drogados- O Desafio Jovem.
O Desafio Jovem foi o primeiro programa de recuperação de pessoas, patrocinado por uma igreja cristã, envolvidas com vício de drogas, álcool e afins. O trabalho que o Pr. David Wilkerson iniciou em NYC foi copiado no mundo todo.

Por conta disso (e muito mais depois de ler o texto acima) fiquei com uma grande vontade de ir a NYC para conhecer a comunidade que o Pr. David Wilkerson fundou, Times Square Church. Em 2008 passei 6 horas em NYC e consegui conhecer o prédio da igreja, mas não o encontrei pessoalmente.

Ano passado David Wilkerson faleceu num acidente de carro, mas só este ano consegui participar com minha família de uma celebração na comunidade que ele deixou. Gostei do que vi, uma mensagem evangélica e bíblica e um lindo coral, apesar de ainda não poder conhecer pessoalmente o Pr. D. Wilkerson, ficou a gratidão a Deus.



http://vimeo.com/38971245

sábado, 17 de março de 2012

SIMPLICIDADE e PERMANÊNCIA por Ricardo Barbosa


"Eu sou a videira, e vocês são os ramos. Quem está unido comigo e eu com ele, esse dá muito fruto porque sem mim vocês não podem fazer nada... E a natureza gloriosa do meu Pai se revela quando vocês produzem muitos frutos e assim mostram que são meus discípulos.Assim como o meu Pai me ama, eu amo vocês; portanto, continuem unidos comigo por meio do meu amor por vocês".Jesus em João cap. 15

De vez em quando gosto de reler “Cartas de um Diabo a seu Aprendiz”, de C. S. Lewis. Sua habilidade em perscrutar os labirintos da tentação me impressionam. Ele nos ajuda a reconhecer nossa enorme ingenuidade e a profunda sagacidade do inimigo.

Em uma dessas cartas, o Diabo reconhece que o verdadeiro problema dos cristãos é que eles são “simplesmente” cristãos. O laço que os une é a vida comum que eles têm em Cristo. Ele então aconselha seu sobrinho: “O que nós desejamos, se não houver mesmo jeito e os homens tiverem de tornar-se cristãos, é mantê-los num estado de espírito que eu chamo de cristianismo e alguma outra coisa [...]. Substitua a fé em si por alguma moda com colorido cristão. Faça com que tenham horror à Mesma Coisa de Sempre”.

A “mesma coisa de sempre” nos deixa entediados. Ser “simplesmente” cristão, para muitos, não é suficiente. Precisamos de coisas novas. Sempre. Modelos novos de igreja, um jeito diferente de cantar, formas inovadoras de culto, estratégias sofisticadas de crescimento, e por aí vai. Somos movidos pelas novidades, não pela profundidade. Nosso interesse está na variedade, não na densidade.

O reverendo A. W. Tozer, num artigo intitulado “A velha e a nova cruz”, comenta o mesmo fenômeno: “Uma nova filosofia brotou dessa nova cruz com respeito à vida cristã, e dessa nova filosofia surgiu uma nova técnica evangélica -- um novo tipo de reunião e uma nova espécie de pregação. Esse novo evangelismo emprega a mesma linguagem que o velho, mas o seu conteúdo não é o mesmo e sua ênfase difere da anterior”.

O Diabo, na carta ao seu sobrinho aprendiz, diz: “O horror pela mesma coisa de sempre é uma das mais preciosas paixões que incutimos no coração humano -- uma fonte infinita de conselhos estúpidos, de infidelidade conjugal e de inconstâncias na amizade”. A lista poderia se estender, mas o que se encontra por trás desse “horror pela mesma coisa de sempre” é a grande atração pelo novo seguida de uma profunda distração pelo essencial. O que a novidade faz é direcionar nossa atenção para outras preocupações, dando mais valor aos meios e não aos fins.

A formação espiritual cristã sempre requereu, basicamente, obediência a Cristo no seu chamado a proclamar o evangelho, fazer discípulos, integrá-los numa comunidade trinitária e ensiná-los a guardar a sua palavra. Ensiná-los a se comprometerem com o serviço como expressão de amor para com o próximo e com o cultivo e a prática de disciplinas espirituais como oração, jejum, arrependimento, confissão, leitura e meditação nas Escrituras e contemplação.

Não importa o quanto nossas igrejas e ministérios sejam sofisticados. Não importa o volume de novidades e tecnologias que oferecemos. Se no final não encontrarmos as mesmas coisas de sempre, significa que nos perdemos com o meio e não alcançamos o fim.

Existem dois aspectos que considero fundamentais na experiência espiritual cristã: simplicidade e permanência. Quando perguntaram para Jesus como o reino de Deus viria, ele respondeu afirmando o seu caráter discreto. Não viria com grande estardalhaço. Se estabeleceria dentro daqueles que o confessam como Senhor e Rei. Jesus apresenta um evangelho que transforma de dentro para fora. O que o vaso contém é infinitamente maior e mais valioso que o vaso. Ele cresce como uma pequena semente de mostarda. A simplicidade está na natureza própria do evangelho.

A permanência define o caráter pessoal e relacional da fé. Permanecer em Cristo é permanecer ligado como galho na videira. É somente nessa permanência que recebemos de Cristo sua vida e a transmitimos aos outros. Permanecer é mais do que conhecer -- é manter-se em constante e dinâmico relacionamento. As novidades não transformam o caráter; a permanência, sim. Para C. S. Lewis, a maturidade é algo que “todos alcançam na velocidade de sessenta minutos por hora, independentemente do que façam e de quem sejam”.
Ricardo Barbosa de Sousa

http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/327/simplicidade-e-permanencia

sábado, 3 de dezembro de 2011

TORNAR-SE CRIANÇA | Ultimato nov/dez 2011

Jesus disse que ninguém pode entrar no reino dos céus se não se tornar como uma criança. A imagem que surge na mente dos adultos, quando ouvem esta afirmação de Jesus, é a da pureza infantil, da inocência, da dependência - virtudes que poucos adultos desejam. Assim, a conclusão lógica a que qualquer um chegaria é que poucos deles entrarão no reino dos céus.

A infância, para muitos adultos, é apenas uma lembrança - boa para uns, ruim para outros. É raro encontrar um adulto que demonstre interesse, por menor que seja, em ser como uma criança. Os poucos que o demonstram, o fazem por razões românticas, não reais. O interesse do adulto pela inocência ou pureza quase sempre é confuso e infantilizado. É também raro encontrar um adulto que, de fato, queira ser dependente. Pode até querer se convencer de suas limitações, mas dificilmente abrirá mão do controle de seu destino. 


Ao tomar uma criança como exemplo daqueles que entrarão no reino dos céus, Jesus não tem em mente as imaginações românticas que nós, adultos, temos da infância. Mesmo porque o reino dos céus não será herdado por adultos infantilizados. Maturidade e crescimento são evidências esperadas na vida daqueles que seguem a Cristo.


Ao tomar uma criança como exemplo, Jesus nos ajuda a corrigir uma compreensão equivocada que temos da virtude da humildade. Os discípulos discutiam entre si qual deles seria o maior no reino dos céus - conversa típica de adulto. No meio desta discussão, Jesus toma uma criança e diz que quem se humilhar como ela - este, sim - será o maior no reino dos céus. 


Tornar-se criança não é transformar-se em um adulto infantilizado; é aprender o significado da humildade, sem a qual ninguém entrará no reino dos céus. Tornar-se como criança é reconhecer a condição de filho e de filha. Ser humilde como uma criança é reconhecer-se como criatura. A natureza humana frequentemente inverte esta relação. O prazer mais natural de uma criança é agradar seus pais. Humildade é agradar aquele (ou aqueles) a quem amamos. Não se trata de uma virtude que se conquista com atitudes modestas ou com a negação de elogios. Ela se desenvolve na medida em que cresce em nós a consciência de quem somos diante do Criador. 


É curioso notar como a fronteira entre a humildade e o orgulho é estreita. Ser elogiado por ter feito algo bom nunca foi um pecado. É legítimo o prazer que sentimos ao agradar alguém a quem amamos. O prazer maior de qualquer cristão será ouvir a voz do Salvador dizer: “Muito bem, servo bom e fiel…” - um elogio que nos encherá de prazer por termos agradado aquele a quem mais amamos. Porém, o elogio pode se transformar em uma fonte de prazer em si mesmo. Neste caso, não se procura agradar a pessoa amada, mas sentir-se valorizado e importante. O polo é invertido: é a criatura assumindo o lugar do Criador. É neste ponto que o adulto deixa de ser criança e torna-se infantil.

Tornar-se criança significa reconhecer a condição de criatura e saber que nada nos alegra mais do que agradar o Criador. É por isso que Jesus nos ensina a entrar no quarto, fechar a porta, para aprender a orar. Orar em público, faz da oração facilmente um fim. Ouvir elogios dos outros nos faz sentir que somos “bons na oração”, enquanto que orar secretamente no quarto nos leva a experimentar a recompensa que vem de Deus. Aprendemos a orar por causa dele e não por nossa causa. Desejamos agradá-lo e não a nós. 


Somente os humildes entrarão no reino dos céus. A verdadeira fé não é fazer grandes coisas em nome de Deus, mas viver de forma a agradá-lo. Não é isto que os pais esperam de uma criança? Tornar-se criança é viver liberto da tirania da vaidade, da busca insana pela autorrealização, da necessidade infantil de ser admirado e reconhecido. Tornar-se criança é experimentar a alegria de viver para aquele que nos criou e agradá-lo. 


"Quer louvar-te um ser humano, parte minúscula de tua criação. És tu mesmo que lhe dás o impulso para fazê-lo, assim ele se sente feliz ao louvar-te. Pois para ti nos criaste, e inquieto é nosso coração, até que chegue a descansar em ti". (Agostinho, “Confissões”) 

•Ricardo Barbosa de Sousa é pastor da Igreja Presbiteriana do Planalto e coordenador do Centro Cristão de Estudos, em Brasília. É autor de “Janelas para a Vida” e “O Caminho do Coração”.
http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/333/tornar-se-crianca

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

AMIGOS: NOSSA NOVA FAMÍLIA | Ultimato

- E o que vocês fazem nos finais de semana? -- perguntei ao jovem casal.
- Vamos à casa de nossos pais almoçar e passamos a tarde lá! Um domingo na casa de cada pai.
Aparentemente isso é muito bom -- apenas aparentemente. Uma das questões com as quais frequentemente nos deparamos em nosso consultório é que muitas pessoas, principalmente os jovens, têm pouca ou nenhuma amizade profunda. É comum os jovens falarem que têm muitos amigos, mas verifico que a maioria destes são virtuais, se encontram nas redes sociais.

Onde estão os amigos que frequentam a casa um do outro? Aqueles com os quais se pode ter conversas significativas?

Atualmente veicula um comercial de bebida que compara a diversão de beber em casa com aquela em um bar. Ele induz o espectador à conclusão de que estar em um bar é muito melhor que ficar em casa. Esta é uma manobra de propaganda consumista, pois fora de casa as pessoas consomem mais do que em casa. Segundo esta lógica, para o capitalismo consumista é melhor não estabelecer amizades profundas, pois fazem mal à economia.

No Salmo 133.1 lemos: “Oh! quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união”. Pergunto-me: como será possível “viver em união” com alguém que encontro em bares? Alguém cuja casa não frequento? Ou mesmo, será que o contato rápido que temos após a celebração religiosa em nossas igrejas é suficiente para produzir uma amizade verdadeira?

As famílias estão cada vez menores e mais isoladas. O casal trabalha a semana inteira, fica horas fora de casa e, nos finais de semana, não tem disposição para desenvolver amizades para si e para os filhos. Correm para o “refúgio da casa dos avós”, que com alegria recebem filhos e netos, mas que mal sabem o dano que podem causar a longo prazo. Exceções acontecem quando a família sai para passear e gastar nos shopping centers e, se sobrar energia, ir à igreja. 

Todo relacionamento profundo e significativo demanda tempo, disposição e franqueza. É necessário tempo para conhecer quais valores o amigo preza e disposição para abrir a minha casa. Muitos escolhem ficar com os amigos virtuais, pois quando não há “olho no olho” é fácil esconder as caracteristícas que não são tão bonitas em nós e no outro, como ocorre nos “chats” e redes sociais. Não são pessoas reais, mas personagens criados.

Quando abrimos nossa casa para os amigos estamos criando várias possibilidades para os nossos filhos.Damos a eles a oportunidade de desenvolver amizades com os filhos de pessoas que conhecemos, que têm valores semelhantes aos nossos e com as quais sabemos que nossos filhos estarão seguros. Por isso é tão importante desenvolvermos amizades que vão além daquelas virtuais.

Quando tenho preguiça em desenvolver relacionamentos verdadeiros “abro a porta” para que meu filho busque as amizades que puder encontrar por conta própria, e estas nem sempre serão boas. Lembro-me de um casal de minha igreja quando convidei a filha deles de 6 anos para vir à minha casa brincar com minha filha, na época com a mesma idade. Disse-me que achava muito trabalhoso levar a menina lá em casa, pois ela poderia muito bem brincar com as crianças de seu condomínio. Infelizmente esta moça hoje encontra-se fora da igreja. Provavelmente a falta de amigos cristãos não foi a única responsável pelo distanciamento, mas pode ter contribuído para que ela não desenvolvesse um sentido de pertencimento à igreja local.

É necessário ter coragem para desenvolver padrões de vida diferentes dos que a sociedade quer nos impor. Fazer boas amizades pode ser custoso, mas as recompensas são grandes. É bom ter uma família extensa que podemos visitar nos finais de semana. Porém, é preciso mais que isso. Nos encontros de casais que costumamos dar, falamos, brincando, que Deus foi muito sábio ao estabelecer quatro finais de semana no mês: um para visitar os avós maternos; um para visitar os avós paternos; um para convidar/visitar os amigos e um para se curtir como família nuclear! Que Deus nos dê sabedoria neste equilíbrio e ousadia na busca de amizades verdadeiras.

• Carlos “Catito” e Dagmar Grzybowski são casados, ambos psicólogos e terapeutas de casais e de família. Catito é autor de Como se Livrar de um Mau Casamento e Macho e Fêmea os Criou, entre outros.