"Temos esta Esperança como âncora da alma, firme e segura, a qual adentra o santuário interior, por trás do véu, onde Jesus que nos precedeu, entrou em nosso lugar..." (Hebreus 6.19,20a)
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domingo, 30 de dezembro de 2012

A SIMPLICIDADE DO EVANGELHO E A SOFISTICAÇÃO DA IGREJA por Ricardo Barbosa

O evangelho de Jesus Cristo é simples. Simples na forma e simples no conteúdo. A vida e o ministério de Jesus acontecem num cenário simples. Ele anunciou as boas novas do reino de Deus, demonstrou a presença do reino através de palavras, exemplos, e ações. Convidou pessoas para estarem e aprenderem com ele. Sofreu as incompreensões do sistema religioso e político do seu tempo. Morreu e ressuscitou. Após a ressurreição, encontrou-se com seus discípulos e comunicou-lhes que recebera toda autoridade no céu e na terra, e que, como Rei e Senhor, enviou seus discípulos para anunciarem as boas novas, levando homens e mulheres a guardarem tudo o que ele ensinou, integrando-os numa comunidade trinitária por meio do batismo, e prometeu estar com eles todos os dias, até o fim.

Alguns dias depois, no meio da festa de Pentecostes, 120 discípulos estavam reunidos em Jerusalém, e a promessa de Jesus se cumpriu. Todos foram cheios do Espírito Santo, começaram a viver a nova realidade anunciada por Jesus, saíram alegremente, por todo canto, pregando a boa notícia de que Deus visitou seu povo e trouxe salvação, justiça e liberdade.

A história seguiu e os cristãos foram se multiplicando, organizando igrejas, criando instituições, formas e ritos. Porém, as instituições cresceram e as estruturas se tornaram mais complexas e sofisticadas. Transformaram-se num fim em si mesmas. A simplicidade do evangelho foi substituída pela complexidade institucional.

C. S. Lewis, na carta 17 do livro Cartas de um Diabo a seu Aprendiz, aborda o tema da glutonaria e afirma que uma das grandes realizações do maligno no último século foi retirar da consciência dos homens qualquer preocupação sobre o assunto, e isso aconteceu quando ele transformou a “gula do excesso na gula da delicadeza”. Para C. S. Lewis, o problema da gula, muitas vezes, não está no excesso de comida, mas na sofisticação, na exigência de detalhes em relação ao vinho, ao ponto do filé ou ao cozimento da massa. Fica impossível atender a um paladar tão sofisticado. A simplicidade do ato de comer dá lugar à sofisticação gastronômica. Pessoas assim, segundo o autor inglês, demitem cozinheiras, destratam garçons, abandonam restaurantes, cultivam relacionamentos falsos e terminam a vida numa solidão amarga.

Como igreja, corremos o mesmo risco. A simplicidade e a pureza do evangelho já não provocam prazer na maioria dos cristãos ocidentais. A sofisticação da igreja, sim. É o vaso tornando-se mais valioso que o tesouro contido nele. Se a música não estiver no volume perfeito, o ar condicionado no ponto exato, a pregação no tempo apropriado, com conteúdo que agrade a todos os paladares e com o bom uso dos aparatos tecnológicos, talvez eu não me agrade desta igreja.

Justificamos a sofisticação com expressões como “busca por excelência”, “relevância”, “qualidade”. Parece justo. O problema é que a excelência ou a relevância do evangelho está justamente na sua simplicidade. É cada vez mais fácil encontrar cristãos que acharam a “igreja certa” do que os que simplesmente encontraram o evangelho. A sofisticação da igreja mantém o cristão num estado de espiritualidade falsa e superficial. A maior deficiência do cristianismo não está na forma, mas no conteúdo.

A verdadeira experiência espiritual requer um coração aquecido e não sentidos aguçados. Precisamos elevar nossos afetos por Cristo, seu reino, sua Palavra e seu povo, e não os níveis de sofisticação e exigências institucionais. O vaso deve ser de barro, sempre. O tesouro que ele guarda, o evangelho simples de Jesus Cristo, é que tem grande valor. A sofisticação produz queixas, impaciência, falta de caridade e egoísmo. A simplicidade sempre nos conduz a compaixão, sinceridade, devoção e autodoação.

Ricardo Barbosa - O Caminho do Coração - Revista Ultimato Jan/Fev 2013
www.ultimato.com.br
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sábado, 17 de março de 2012

SIMPLICIDADE e PERMANÊNCIA por Ricardo Barbosa


"Eu sou a videira, e vocês são os ramos. Quem está unido comigo e eu com ele, esse dá muito fruto porque sem mim vocês não podem fazer nada... E a natureza gloriosa do meu Pai se revela quando vocês produzem muitos frutos e assim mostram que são meus discípulos.Assim como o meu Pai me ama, eu amo vocês; portanto, continuem unidos comigo por meio do meu amor por vocês".Jesus em João cap. 15

De vez em quando gosto de reler “Cartas de um Diabo a seu Aprendiz”, de C. S. Lewis. Sua habilidade em perscrutar os labirintos da tentação me impressionam. Ele nos ajuda a reconhecer nossa enorme ingenuidade e a profunda sagacidade do inimigo.

Em uma dessas cartas, o Diabo reconhece que o verdadeiro problema dos cristãos é que eles são “simplesmente” cristãos. O laço que os une é a vida comum que eles têm em Cristo. Ele então aconselha seu sobrinho: “O que nós desejamos, se não houver mesmo jeito e os homens tiverem de tornar-se cristãos, é mantê-los num estado de espírito que eu chamo de cristianismo e alguma outra coisa [...]. Substitua a fé em si por alguma moda com colorido cristão. Faça com que tenham horror à Mesma Coisa de Sempre”.

A “mesma coisa de sempre” nos deixa entediados. Ser “simplesmente” cristão, para muitos, não é suficiente. Precisamos de coisas novas. Sempre. Modelos novos de igreja, um jeito diferente de cantar, formas inovadoras de culto, estratégias sofisticadas de crescimento, e por aí vai. Somos movidos pelas novidades, não pela profundidade. Nosso interesse está na variedade, não na densidade.

O reverendo A. W. Tozer, num artigo intitulado “A velha e a nova cruz”, comenta o mesmo fenômeno: “Uma nova filosofia brotou dessa nova cruz com respeito à vida cristã, e dessa nova filosofia surgiu uma nova técnica evangélica -- um novo tipo de reunião e uma nova espécie de pregação. Esse novo evangelismo emprega a mesma linguagem que o velho, mas o seu conteúdo não é o mesmo e sua ênfase difere da anterior”.

O Diabo, na carta ao seu sobrinho aprendiz, diz: “O horror pela mesma coisa de sempre é uma das mais preciosas paixões que incutimos no coração humano -- uma fonte infinita de conselhos estúpidos, de infidelidade conjugal e de inconstâncias na amizade”. A lista poderia se estender, mas o que se encontra por trás desse “horror pela mesma coisa de sempre” é a grande atração pelo novo seguida de uma profunda distração pelo essencial. O que a novidade faz é direcionar nossa atenção para outras preocupações, dando mais valor aos meios e não aos fins.

A formação espiritual cristã sempre requereu, basicamente, obediência a Cristo no seu chamado a proclamar o evangelho, fazer discípulos, integrá-los numa comunidade trinitária e ensiná-los a guardar a sua palavra. Ensiná-los a se comprometerem com o serviço como expressão de amor para com o próximo e com o cultivo e a prática de disciplinas espirituais como oração, jejum, arrependimento, confissão, leitura e meditação nas Escrituras e contemplação.

Não importa o quanto nossas igrejas e ministérios sejam sofisticados. Não importa o volume de novidades e tecnologias que oferecemos. Se no final não encontrarmos as mesmas coisas de sempre, significa que nos perdemos com o meio e não alcançamos o fim.

Existem dois aspectos que considero fundamentais na experiência espiritual cristã: simplicidade e permanência. Quando perguntaram para Jesus como o reino de Deus viria, ele respondeu afirmando o seu caráter discreto. Não viria com grande estardalhaço. Se estabeleceria dentro daqueles que o confessam como Senhor e Rei. Jesus apresenta um evangelho que transforma de dentro para fora. O que o vaso contém é infinitamente maior e mais valioso que o vaso. Ele cresce como uma pequena semente de mostarda. A simplicidade está na natureza própria do evangelho.

A permanência define o caráter pessoal e relacional da fé. Permanecer em Cristo é permanecer ligado como galho na videira. É somente nessa permanência que recebemos de Cristo sua vida e a transmitimos aos outros. Permanecer é mais do que conhecer -- é manter-se em constante e dinâmico relacionamento. As novidades não transformam o caráter; a permanência, sim. Para C. S. Lewis, a maturidade é algo que “todos alcançam na velocidade de sessenta minutos por hora, independentemente do que façam e de quem sejam”.
Ricardo Barbosa de Sousa

http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/327/simplicidade-e-permanencia

quarta-feira, 1 de junho de 2011

CUIDADO COM OS LADRÕES por Carlos “Catito” e Dagmar

Há algum tempo, dei uma palestra sobre relacionamento familiar em Rondonópolis, MT. Depois da palestra, fui convidado por um grupo para ir jantar um delicioso peixe na brasa. Em meio a conversas e risadas, um casal de noivos que estava sentado ao meu lado me fez a seguinte pergunta: “Professor, vamos nos casar no mês que vem. Sabemos que não existe mágica para um casamento funcionar. Porém, queríamos saber se o senhor teria alguma dica para nos dar. Gostaríamos de cultivar um bom relacionamento desde o começo”.

Pensei por alguns segundos antes de responder e depois olhei bem para eles e disse: “Tenho sim!”.

O casal ajeitou-se na cadeira como se fosse participar de um momento especial, arregalou os olhos e aproximou-se para ouvir-me melhor. Então eu disse: “Se vocês querem ter um casamento harmônico desde o início, “não tenham nem televisor nem computador em casa” nos primeiros dois anos de casado!”.

Eles se entreolharam, com um esboço de sorriso e uma expressão de interrogação, perguntando-se se eu estava falando sério ou se era apenas uma piada, entre as muitas que eu havia contado durante a palestra. Então eu continuei, solene: “Bem, me digam uma coisa, se vocês não tiverem televisão nem computador nos dois primeiros anos de casado, no final do expediente irão chegar em casa, jantar e em seguida farão o que?”. Novamente o casal se entreolhou com um sorriso maroto. Eu complementei: “Tudo bem, “além disso”, vão fazer o quê?”. Eles soltaram uma gargalhada e responderam: “Conversar!”.

Realmente não há fórmulas mágicas para um sucesso no casamento, senão o diálogo. Nos dias atuais, a televisão e o computador são os maiores “ladrões do diálogo conjugal e familiar”. As pessoas chegam em casa cansadas de expedientes muitas vezes torturantes e querem “não pensar”. Apenas se jogam em frente à televisão ou ao computador e ali deixam a mente vagar pelos espaços cibernéticos, sem fazer esforço algum, senão o de mexer os dedos para zapear ou o de teclar e clicar o mouse.

Muito cuidado com esse relax! Existe muito lixo no espaço cibernético e nas programações televisivas que sorrateiramente se acumula nos cantos da mente e produz, em médio prazo, um fedor comportamental que infecta os relacionamentos. Não poucas vezes ouvi comentários de distintas senhoras cristãs, muitas vezes em encontros de casais, afirmando que estavam torcendo para que uma determinada personagem da novela abandonasse o marido e ficasse com o amante, pois o primeiro era nefasto, enquanto o segundo era adorável. Esse lixo entra silenciosamente nas mentes e vai distorcendo os valores.

Ao consultório nos chegam inúmeros casos de homens e mulheres com uma vasta bagagem cristã, mas que, de um momento para o outro, se veem envolvidos em pornografia pela internet. Isso por terem “inocentemente” entrado em salas de bate-papo e, paradoxalmente, não terem mais espaço de diálogo com o cônjuge.


Jesus alerta: “O ladrão só vem para roubar, matar e destruir; mas eu vim para que as ovelhas tenham vida, a vida completa” (Jo 10.10, NTLH).

Cuidemos então de cultivar o diálogo conjugal e familiar e de manter os ladrões distantes de nossa casa. Talvez você não precise desfazer-se de sua televisão ou computador, mas precise orar a Deus para desenvolver o fruto do Espírito Santo, que inclui o domínio próprio (Gl 5.22). Dominar o impulso de chegar em casa e ligar a televisão ou o computador e aproveitar o tempo para um fecundo diálogo conjugal e familiar é, sem dúvida, sinal de maturidade espiritual.


Carlos “Catito” e Dagmar são casados, ambos psicólogos e terapeutas de casais e de família. Catito é autor de Como se Livrar de um Mau Casamento e Macho e Fêmea os Criou, entre outros.


http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/330/cuidado-com-os-ladroes

sábado, 5 de março de 2011

A SIMPLICIDADE INTERIOR E A VIDA INTEGRADA por Richard J. Foster

Nossa falta de integração

A simplicidade interior é o que pode produzir uma "pessoa integrada". Mas o que é uma pessoa integrada? É o contrário de uma pessoa desintegrada. Isto parece um trocadilho, mas é comparando os opostos que se tornam claros esses conceitos.

A pessoa desintegrada é aquela que perdeu a identidade como um bloco único. Parece que ela é um amontoado de pedaços: mãe, filha, estudante, trabalhadora, participante de um grupo etc. Isso tudo é uma realidade na nossa vida e não sei se há como fugir dela. O problema, no entanto, reside no fato de que a pessoa passa a viver uma vida em pedaços, não sabendo mais quem ela é. É como se ela fosse uma máquina realizando várias funções. Como o que sustenta essa máquina é a urgência dos compromissos, ela acaba realizando de modo automático várias coisas e não se apercebe mais daquilo que realmente lhe interessa, do porquê fazer aquelas coisas, enfim... É como se seguisse um fluxo sem saber por que o está seguindo. Passa a viver uma vida internamente dispersa, sem consciência, sem reflexão, sem integração.

Disparamos aqui e ali tentando desesperadamente cumprir as muitas obrigações que pesam sobre nós. Aos trancos, alternamo-nos entre os compromissos do trabalho e as responsabilidades da família. Enquanto estamos ocupados atendendo às necessidades de um filho ou cônjuge, sentimo-nos culpados por negligenciar as exigências do trabalho. Quando atendemos às pressões do trabalho, tememos estar falhando com a família. Naquelas raras ocasiões em que conseguimos equilibrar as duas com sucesso, as questões mais amplas da nação e do mundo sussurram chamados irritantes de serviço. Se alguém precisa de simplificação da vida, somos nós.

Dentro de todos nós existe um conglomerado de "eus". Há o eu tímido, o eu corajoso, o eu dos negócios, o eu que é pai ou mãe, o eu religioso, o eu literário, o eu enérgico. E todos estes eus são individualistas rudes. Nada de barganha ou transigência para eles. Cada um berra a fim de proteger seus interesses assegurados. Se é tomada uma decisão de passar uma noite tranqüila ouvindo Chopin, o eu dos negócios e o eu cívico se erguem em protesto ante a perda de tempo precioso. O eu enérgico anda de um lado para outro, impaciente e frustrado, e o eu religioso nos relembra das oportunidades perdidas de estudo ou contato evangelístico. Se a decisão é a de aceitar uma nomeação para o conselho de serviços humanos, o eu cívico sorri de satisfação, mas todos os eus excluídos fazem obstrução. Não admira que nos sintamos perturbados e divididos.

Na verdade, isso não é nenhum pouco estranho para nós. Quanto não conversamos entre nós sobre a organização do tempo e, por tabela, sobre esses muitos eus? Fazemos isso muitas vezes e a conclusão a que chegamos é que é necessário EQUILIBRAR as coisas. Ficamos como um mosaico todo feito de partes.

Achando o Centro

Senti isso durante longos anos, mas um fato mudou minha vida. Ainda me lembro da manhã chuvosa de fevereiro dentro de um aeroporto de Washington, D.C., muitos anos atrás. Exausto, afundei numa poltrona para esperar o meu vôo. Como sempre, eu havia levado material para ler a fim de aproveitar bem os momentos livres. Pela primeira vez na vida, abri o "Testamento de Devoção", de Thomas Kelly.

De pronto, ele me prendeu a atenção ao descrever perfeitamente a minha condição e a condição de tantos que eu conhecia: "Sentimos honestamente a tensão de muitas obrigações e tentamos cumpri-las todas. E ficamos infelizes, inquietos, tensos, oprimidos e temerosos de sermos superficiais."

Sim, eu tinha de confessar que me encontrava nestas palavras. Para todos os que me viam, eu estava confiante e no comando, mas por dentro estava cansado e disperso. Então meus olhos deram com palavras de esperança e promessa: "Temos pistas da existência de uma forma de vida imensamente mais rica e profunda do que toda esta existência frenética, uma vida de serenidade e paz e poder tranqüilos. Se tão somente pudéssemos adentrar suavemente esse Centro!"

Instintivamente, eu soube que ele falava de uma realidade além da que eu já conhecera. Por favor, entenda-me, eu não era ímpio ou irreverente, justamente o oposto. Meu problema era eu ser tão sério, tão preocupado em fazer o que era certo que me sentia compelido a atender a todo chamado para servir. E, afinal, eram oportunidades maravilhosas de ministrar em nome de Cristo.

Então me veio a sentença que daria início a uma revolução interior: "Temos visto e conhecido algumas pessoas que parecem ter encontrado este Centro profundo de vida, onde os chamados mal-humorados da vida estão integrados, onde o Não, bem como o Sim, podem ser ditos com confiança."

Esta capacidade de dizer Sim e Não a partir do Centro Divino me era estranha. Eu sempre orava a respeito das decisões, e, contudo, por vezes em demasia, respondia sobre se a ação me colocaria ou não numa luz favorável. Dizer "Sim" a apelos de ajuda ou oportunidades de servir geralmente trazia consigo uma aura de espiritualidade e sacrifício. Eu podia dizer "Sim" facilmente, mas não tinha a capacidade de dizer "Não". O que as pessoas pensariam de mim se eu recusasse?

Sozinho, permaneci sentado no aeroporto vendo a chuva bater contra a janela. Lágrimas caíram sobre meu casaco. Era um lugar santo, um altar, a poltrona onde eu me encontrava sentado. Eu jamais seria o mesmo. Silenciosamente pedi a Deus que me desse a capacidade de dizer "Não" quando isso fosse certo e bom.

O Teste

De volta à casa, fui de novo apanhado num turbilhão de atividades. Mas eu tomara uma decisão – as noites de sexta-feira seriam reservadas para a família. Foi uma decisão pequena na época. Ninguém além de mim realmente sabia a este respeito. Contei à família de uma maneira casual, indiferente. Eles não sabiam que era um compromisso com valor de pacto, uma decisão crucial. Para falar a verdade, nem eu sabia. Apenas parecia a coisa certa a fazer, dificilmente o que se poderia chamar de uma diretriz dada por Deus.

Mas então veio o telefonema. Era um executivo denominacional. Será que eu estaria disposto a falar ao seu grupo na sexta-feira à noite? Ali estava outra oportunidade maravilhosa.

Minha reação foi casual, quase inconsciente: "Oh, não, não posso."

A resposta também foi casual: "Oh, você já tem compromisso?" Senti que estava num beco sem saída.

Naqueles dias, eu não sabia que podia mui legitimamente dizer que de fato tinha um compromisso muito importante. Cautelosamente, mas com determinação, respondi simplesmente: "Não", sem tentar justificar ou explicar minha decisão.

Seguiu-se longo período de silêncio que pareceu durar uma eternidade. Eu quase podia sentir as palavras: "Onde está a sua dedicação?" vindas pelos fios telefônicos. Eu sabia que tinha tomado uma decisão que me fazia parecer menos espiritual a alguém com quem eu genuinamente me importava.

Após um momento, compartilhamos algumas amabilidades e ele desligou; mas quando o fone tocou o gancho, gritei intimamente: "Aleluia". Eu havia me rendido ao Centro. Havia tocado a margem da simplicidade, e o efeito era eletrizante.

Deus em Nós ou Nós em Deus?

É interessante como essa experiência me auxiliou a viver uma vida integrada. Eu não deixei de me dedicar ao trabalho de Deus, mas o que aconteceu foi que as demais coisas que fazia ganharam um novo status, um novo valor. Na verdade, comecei a reconhecer a Deus em todo o meu viver. Eu era profundamente comprometido, mas não estava integrado ou unificado. Achava que servir a Deus era outra obrigação a ser acrescentada a um horário já bem ocupado. Mas aos poucos passei a ver que Deus desejava estar, não nas bordas, mas no centro da minha experiência. A jardinagem já não era uma experiência fora do meu relacionamento com Deus – descobri a Deus na jardinagem. Nadar já não era apenas um bom exercício – tornou-se uma oportunidade para comunhão com Deus. Deus em Cristo se tornara o Centro.

Na verdade, o que precisamos não é trazer Deus para nossa vida, mas mergulharmos na vida de Deus. Falei antes de Deus estar na periferia da minha vida. Na realidade, seria mais correto dizer que eu estava na periferia da Vida de Deus. Era eu quem precisava entrar no Centro, no Cerne. Uma coisa é Deus entrar em nós (e uma coisa muito necessária), mas é bem outra nós entrarmos em Deus. No primeiro caso, ainda somos o centro da atenção; no segundo, Deus é o ponto focal.

Quando Deus entra em nós, ainda temos certa autonomia; quando entramos em Deus, estamos DENTRO. Ele está em tudo, e através de tudo, e acima de tudo. Isto não é um panteísmo infantil, como se Deus pudesse ser capturado sem sua criação; é um monoteísmo maravilhoso, majestoso – um Deus a partir de quem toda vida é sustentada. É vida a partir do Centro Divino.

O oposto de nos atirarmos em Deus e viver a partir deste centro me traz novamente à lembrança a canseira causada pela tentativa de equilibrar tantos "eus". Ter a Deus como Centro é entrar em um grande rio e deixar-se levar pela corredeira, não precisando remar, mas deixando-se levar. É um corpo que cedeu aos movimentos do rio, o rio de Deus.

Tenho notado que me desgasto interiormente muito antes de fazê-lo exteriormente. Portanto, preciso tomar cuidado para não me tornar um monte frenético de energia oca, ativo entre pessoas, mas destituído de vida. Preciso aprender quando me retirar, como Jesus, e experimentar o poder restaurador de Deus. Lemos que Pedro se demorou em Jope por muitos dias com um certo Simão, um curtidor (Atos 9.43). Ao longo de nossa jornada, precisamos descobrir numerosos "lugares de permanência", onde possamos receber o maná celestial.

Extraído e adaptado de "Celebração da Simplicidade", Richard Foster; direitos autorais pertencentes à Editora Hagnos, edição atualmente esgotada. Richard Foster, autor e conferencista, tem raízes entre os quacres (Quakers), com os quais mantém ligações até o presente. É fundador de "Renovare", uma organização dirigida ao desenvolvimento e crescimento da vida espiritual entre os cristãos de todas as igrejas (www.renovare.org).